domingo, 27 de março de 2011

O pijama e o TV

Existem várias modalidades de torcedor de futebol espalhados por aí. O fanático, o pessimista, o sofredor, o dramático, o empolgado. Cada um tem sua peculiaridade e seu jeito de torcer. Mas dois tipos, em especial, me interessam mais. O torcedor de pijama e o torcedor de TV.

Os dois, obviamente, não freqüentam o estádio. Há muito não sabem o que é um engarrafamento, um empurra-empurra, um feijão tropeiro ou um cachorro quente feito na cozinha improvisada, ou um copo de líquido incerto atirado a poucos metros.

Mas o pijama e o TV estão longe de se parecerem.

 O torcedor de pijama simplesmente se cansou de tudo o que o que foi dito acima. Está farto de ser agredido e desrespeitado nos seus mais básicos diretos de cidadão, quando vai ao campo. De tanto ter ido. Mas sabe de cor a escalação do time. Sabe quem é o goleiro do sub-17 convocado pela seleção. Sabe as tabelas de todas as competições do ano e onde vai ser o jogo do time no dia do seu aniversário.

Já o torcedor de TV não está nem aí pra nada. Não sabe o nome do goleiro nem do camisa 10. Não desmarca um compromisso por causa do jogo de quarta-feira. É aquele que, de tempos em tempos, alguém olha e pergunta: - Esse cara gosta de futebol? Ele só é notado quando o time ganha o jogo da TV, domingo à tarde, e aparece no escritório fazendo piada com todo mundo, mesmo sem saber quem fez os gols.

O torcedor de pijama é austero, íntegro. Tem um passado e uma história a zelar. O de TV não. Além de chato e arrogante, não merece o respeito de ninguém. E como tem desse tipo por aí...

terça-feira, 22 de março de 2011

A culpa não é sua

O homem moderno sofre demais. Contas, horários, compromissos e trânsito. Senhas pra lembrar e tristezas pra esquecer. Trabalho pesado, rotina enfadonha. Desamor, solidão, insônia, enxaquecas, cólica. É duro, amigo. Mas ninguém falou que ia ser fácil.

Grande parte dos transtornos da vida de hoje vem da infância. De alguém que disse alguma coisa que marcou. Ou da lembrança de alguma coisa que realmente marcou. De palavras duras, cobranças demasiadas, expectativas amargas. De sonhos que nunca se realizaram.

Uma coisa é certa: a culpa não é sua! Não pague por frustrações que você não deve ter. Por pecados que não cometeu. E por projetos fracassados que você nunca quis que se realizassem.

Você não é culpado porque seu time perdeu a final pro rival. Foi o centroavante que perdeu o gol. Foi o zagueiro que furou, e o goleiro que levou o frango. Você gritar ou não na arquibancada, justo naquele jogo em que não pôde ir, não ia mudar o rumo das coisas.

Cuide da criança que você foi. Pro seu próprio bem. Pegue-a no colo, faça carinho nela. Diga que a culpa não é dela, que ela fez o melhor que podia. Você vai dormir bem melhor. Sua vida vai ficar mais fácil depois que você fizer isso. Porque, afinal, a culpa também não é sua.

Apelidos

Em meados dos anos 1940, o garoto Édson, chamando de Dico pela família, era fã de um tal Bilé, goleiro do glorioso Vasco de São Lourenço. Entre uma defesa e outra que Dico fazia, nas peladas de infância, ele soltava o brado: defendeu Bilé! Como brasileiro adora apelido, Dico virou Bilé, e entre um sotaque e outro, uma irritação do pequeno Édson e outra, se transformou eternamente em Pelé.

Mais ou menos uns dez anos depois, chegamos ao tempo em que o pequeno Eduardo jogava suas peladinhas entre as crianças maiores no conjunto habitacional IAPI, pertinho do centro de Belo Horizonte. De tão pequenino, Eduardo era chamado de Tostão, numa ‘homenagem’ à moeda de menor valor da época. Se gostava ou não do apelido, nunca ouvi falar. O que sei é que Eduardo também se transformou em Tostão por toda a eternidade.

Outro salto de dez anos na nossa história e chegamos ao jovem Roberto, jogador do Vasco. Reza a lenda que após seu primeiro jogo como profissional do clube da Colina, uma derrota por 1 a 0 para o Bahia, o famoso Jornal dos Sports o chamou de garoto dinamite. Roberto deve ter gostado do apelido, tanto que o usa até hoje, inclusive como presidente do clube onde viveu toda sua vida.

Pois é, fico pensando se Pelé, Tostão e Dinamite começassem suas carreiras nos dias de hoje. Certamente seriam chamados de Édson Nascimento, Eduardo Andrade e Carlos Roberto. O futebol moderno é chato demais. Os três certamente jogariam o mesmo tanto, mas o encanto da torcida seria bem menor. Sem falar que logo iriam pro Chelsea, pro Barcelona ou pro Lyon. Mas isso é outro assunto...

Não tenho nada contra os Thiago Ribeiro, Renan Oliveira e Lucas Piazon da vida. Muito pelo contrário, todos jogam muito. Só acho que se fossem chamados de Tucho, Negueba ou Obina seriam mais divertidos. E talvez tivessem a inspiração que só apelidos como Pelé, Tostão e Dinamite podem dar.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Saudade

Saudade é um negócio complicado. Tem gente que não gosta, enquanto outros dependem dela pra viver. Uns ficam deprimidos e alguns se alimentam de lembranças. Pessoas, lugares, cheiros, gostos, enfim... quase tudo é motivo pra se sentir saudade.

Eu, por exemplo, estou com saudade do Mineirão. O trânsito barulhento pra chegar ao estádio, as filas gigantescas pra comprar ingressos, o empurra-empurra pra entrar. As coisas ruins também fazem falta quando o motivo maior da saudade supera tudo.

Nada no mundo me deu emoção maior do que subir lentamente as escadas de acesso às arquibancadas, ouvindo as vozes da torcida ao longe. O tapete verde que se apresenta ao primeiro olhar no topo da escada. E os minutos de aflição que antecedem um grande jogo.

Sinto saudade dos amigos que iam comigo ao Mineirão. Saudade dos primos e tios, companheiros de arquibancada, que hoje vejo tão pouco. Saudade dos bons momentos antes dos jogos, e das horas de agonia ao voltar pra casa, depois de perder um clássico.

Saudade é assim mesmo. Cada um sente a sua. De coisas que estão perto ou longe. De gente que um dia volta. Ou que nunca mais vai voltar. Saudade do que foi bom. E até do que foi ruim. Saudade de coisas que a gente nem sabe mesmo o porquê de sentir tanta saudade...

domingo, 13 de março de 2011

O bolero do pênalti perdido

Eu queria ter sido cantor de bolero. Provavelmente minha vida estaria muito pior agora. Os dentes também. As contas atrasadas, o aluguel, o IPVA da velha Caravan. Os amigos indo embora, um a um, de cirrose, hepatite, tristeza, solidão...

Ser um cantante, obviamente, também teria seu lado bom. Mulheres apaixonadas, infinitas doses de vermute, orquestras afinadas me acompanhado, plateias lotadas me aplaudindo. Não, não, isso não. Eu não me mudaria pro México ou pra Argentina para realizar meu sonho.

Como nunca tive muito talento pra cantar, virei então, jornalista esportivo. Mas o bolero eterno que toca dentro do meu coração nunca me largou, e até hoje não me deixa acompanhar uma partida de futebol sem sentir o drama e a tristeza de uma canção apaixonada.

Existe coisa mais cruel do que um pênalti perdido? Um gol praticamente feito vira uma decepção sem igual. Isso é letra de bolero, acordes desesperados e a voz rouca do cantor tentando, inutilmente, mudar o passado.

O goleiro que defende um pênalti é um canalha. É o sujeito que está com a mulher do cantor, na letra da música. É o traidor, é aquele que causou a tragédia e a separação da união mais óbvia criada por Deus: atacante e gol.

Todo pênalti deveria ser transformando automaticamente em gol. E não venham me dizer que o goleiro vira herói. Porque é do vilão que vão falar o resto da vida. O doce da conquista passa, mas o amargo da derrota é eterno. Como um gole de vermute.

sábado, 12 de março de 2011

Garrincha e Disney

Eu sempre achei que o Garrincha fosse um personagem de Walt Disney. Daqueles que ficam correndo nos bosques, entre árvores, rios, maçãs e flores. Com borboletas, cachorros, Mickey, Pato Donald e Pluto. Pra mim, o ponta direita mais famoso do Brasil sempre teve cara de coisa leve, que flutua e viaja com liberdade. É claro que não o vi jogar, nasci em 1976. Mas, Ruy Castro, Armando Nogueira e Nélson Rodrigues me contaram. E, sobretudo, meu saudoso avô me contou.

Vi também, quando criança, várias imagens em vídeo de Mané Garrincha e nunca consegui separar suas cores de desenho animado de um belo fundo musical. Eu tinha até um roteiro.

Vou explicar. Imagine Garrincha com a bola pela ponta direita. Três ou quatro marcadores perto dele. Capriche aí na cena, porque na sua imaginação não existem chuviscos de videotapes antigos. Mané, em traços mágicos, dribla um, dois, três, vinte e oito – vai lá, é a sua cena, pode tudo – volta, dribla de novo e chuta pra fazer o gol. Perfeito não é? Não. Porque falta o fundo musical. Garrincha driblando é como uma valsa de um desenho Disney. A música vai e volta como os zagueiros, a orquestra se alterna ao ritmo das pernas tortas do Mané, e os violinos vibram a cada João caído pelo gramado.

Volte e imagine toda a cena de novo, agora com a música. Os zagueiros Huguinho, Zezinho e Luizinho vão ficando para trás, o Professor Pardal tenta entender aquela invenção de dribles sem precedentes, e a orquestra lá, ritmando tudo. Ficou bem melhor.

O problema é que, como em todo conto de fadas, existe uma bruxa malvada, e ela apareceu para Garrincha. Com verruga no nariz e voz de megera, a bruxa do Mané era poderosa. Foi tomando conta da sua vida pouco a pouco, e, quando ele assustou, não era mais jogador, nem pai, nem amigo, nem marido, nem desenho, nem nada. Mané Garrincha provou a maçã envenenada da bruxa má e, para a orquestra de violinos de Walt Disney, só restou o silêncio.

sexta-feira, 11 de março de 2011

My little brother

Paulinho ganhou o apelido no diminutivo por ser xará do pai. O porte franzino e o fato de ser o primogênito também ajudaram. O guri reinou absoluto como único filho e neto até completar seis anos.

Até que chegou o Marcelão. O irmãozinho do Paulinho nasceu com quase quatro quilos, daí o aumentativo no nome do garoto. Mas, uma infecção hospitalar fez com que o Marcelão fosse pra casa miudinho e rodeado de cuidados. Enquanto isso, o Paulinho já estava forte como um bezerro, repleto de amor e mimos.

Assim cresceram os dois irmãos. O grandão com apelidinho e o pequenininho com apelidão. Paulinho e Marcelão foram crianças comuns, saudáveis, cheias de energia e vontade de brincar. Até que chegou a adolescência. Para o Paulo, já bonitão e vistoso para as meninas. O Marcelo parecia um ratinho, enfiado entre os livros e os brinquedos.

E foi aí que começaram os problemas do Paulinho. A mãe, Dona Zuleide, na melhor das intenções, queria que ele levasse o irmãozinho pra todo canto. Festas, bailes, horas dançantes do colégio, tudo, enfim. O Marcelão achava o máximo estar misturado com a galerinha mais velha, mas o Paulinho não via graça em nada daquilo. Afinal ele tinha que cuidar do irmão, enquanto podia estar cuidando e sendo cuidado por Simones, Anas, Paulinhas e Claudinhas da escola.

Cinema, showzinho de rock, violão na pracinha, reunião do grupo de jovens da igreja, qualquer coisa que o Paulinho quisesse fazer, só ia com o Marcelão a tiracolo. Dona Zuleide tinha trauma de ter visto o caçula sofrer tanto no berçário, mesmo que ele já tivesse a saúde de um potro, ainda que fosse tão pequenino. Paulinho não tinha outra escolha. Ou levava o Marcelão ou não ia. E assim ia tocando a vida e os momentos de lazer da adolescência.

Como toda história tem sua ironia, havia um lugar em que a Dona Zuleide proibia terminantemente a presença do Marcelão. E este era o único em que o Paulinho fazia questão de levar o irmão: o campo de futebol.

Não porque o Paulinho era rebelde. Muito pelo contrário. Mas simplesmente porque ir ao Mineirão não tinha a menor graça sem o little brother ao lado.

No estádio os dois eram um só. Dividiam como irmãos o mesmo grito, o mesmo abraço e o mesmo prato de feijão tropeiro. Passavam juntos na catraca, xingavam as mesmas pessoas e, sobretudo, comemoravam os mesmos gols. Os dois sabiam disso. Todo aquele espetáculo não fazia o menor sentido sem o outro do lado.

Paulinho e Marcelão hoje são adultos. Continuam indo ao Mineirão juntos, como sempre. O grande e o pequeno ainda se lembram bem. No estádio é que tudo era mais explícito. Mas o cinema, as festas, os shows, enfim, todos aqueles compromissos em que iam juntos por ordem de Dona Zuleide, não tinham o menor significado se um não estivesse ao lado do outro.


Para minha irmã Carla, aniversariante da semana

sábado, 5 de março de 2011

O Hino Nacional

Pode até parecer, mas eu não sou saudosista. Só que tem algumas coisas que realmente eram melhores e faziam mais sentido na minha infância. O Hino Nacional é o exemplo mais marcante disso. Quando tocava o hino, todo mundo ficava de pé, a gente fazia silêncio, muitos com a mão sobre o coração, e crianças e adultos cantavam o que sabiam da complicada e erudita letra.

A gente entendia. Se estivessem tocando o hino, era por algum motivo sério. Alguma data cívica importante, uma figura histórica que havia morrido, ou coisa do tipo. Toda a molecada respeitava, e assim aprendemos a amar a bandeira e o hino do Brasil. Ou pelo menos a fingir bem.

Acontece que hoje cismaram de tocar o hino em qualquer atividade pública. Final do Campeonato Municipal de Cuspe à Distância. Posse da Dona Marly como nova cozinheira da Secretaria Regional de Economia Doméstica. Substituição do Juquinha pelo Ribamarzinho nos Escoteiros Voluntários do Estado.

Aí não tem cristão que aguente. A letra já é difícil e longa e ninguém sabe o que significam palavras como impávido, fúlgido e plácidas, todas proparoxítonas, por sinal. Fica chato mesmo. Se a ideia era popularizar o hino, estão fazendo exatamente o contrário. Ô saudade de quando as coisas tinham sentido no mundo...

Comemorações

Falar que o gol é a emoção maior do futebol é tão óbvio e antigo quanto Belchior imaginar a angústia do goleiro naquele momento. Vamos, então, deixar angústias e goleiros de lado, por ora, e nos concentrar apenas na emoção maior, já que o gol é o que move a vida. É o que transforma, inspira e arrebata. É o que derruba generais e eleva plebeus e bobos ao lugar mais nobre do trono. Nada mais justo, portanto, do que extravasar naquele momento toda a energia e inspiração possíveis.

A mais clássica comemoração de gols de todos os tempos é a do rei Pelé, claro. O soco no ar é um patrimônio mundial da humanidade, marca registrada de um gênio sem comparações. Imitada nos quatro cantos do mundo até hoje, justamente por ter sido tão sincera e verdadeira.

Mas, vários outros jogadores, mortais e de carne e osso, como nós, também gravaram seu nome na história, após marcar um gol e comemorar de forma diferente. Bebeto, na Copa de 1994, teve a companhia de Mazinho e Romário, para embalar o filho recém-nascido e emocionar todo o Brasil.

Paulo Nunes e Viola fizeram coreografias, levaram máscaras e chupetas dentro dos calções, provocaram os rivais e, também, se eternizaram na história. Raí e Neto tinham uma forma particular e emocional de dar seu soco no ar. Reinaldo viveu a plenitude dos anos 1970, ao comemorar como os Panteras Negras. Lela fez careta, homenageando os filhos, crianças, Alecsandro e Richarlyson, que cresceram e retribuíram, ao imitar a alegria do pai na hora do gol.

A emoção é tão impar, que Gilmar dos Santos Neves, bicampeão mundial com a Seleção Brasileira, em 1958 e 1962, sorria após sofrer um gol, mostrando a todos exatamente o oposto da angústia do goleiro. Quer coisa mais legal que isto?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Clássicos do interior

Vou contar um segredo. Até gosto de futebol internacional. Como amante do Velho Ludopédio, não sou louco de não gostar. Curto um Milan x Inter, um Barcelona x Real, um Manchester United x Arsenal. Mas o que me emociona de verdade, desde os meus primórdios futebolísticos, são os clássicos do interior do Brasil. Esses jogos tão comuns no país até os anos 1990 e tão raros desde então.

Esta semana, Uberaba e Nacional fizeram um amistoso comemorando os 191 anos da cidade de Uberaba. O jogo movimentou o Triângulo Mineiro, já que não era disputado de forma oficial desde 2004, ano em que o Naça desativou seu departamento de futebol profissional.

Como este, vários outros clássicos revivem rivalidades históricas Brasil afora. O estado de São Paulo é o mais rico neste quesito. Botafogo e Comercial fazem o Comefogo de Ribeirão Preto, São José e Taubaté despertam fortes emoções no Vale do Paraíba, e América e Rio Preto dividem São José do Rio Preto em duas metades. Isto sem falar no derby campineiro, disputado entre Guarani e Ponte Preta e que já valeu até pela primeira divisão do Campeonato Brasileiro.

Caxias x Juventude, Goytacaz x Americano, Treze x Campinense, Anapolina x Anápolis, enfim, é uma gama ampla de grandes rivalidades espalhadas pelo interior do Brasil, de norte a sul. Que a modernidade do futebol foi minando pouco a pouco.

Hoje em dia, a primeira camisa de um garoto de Belém é a do Chelsea, quando deveria ser do Remo ou do Papão. Sampaio Corrêa e Moto Clube jogam pra dois mil pagantes, em São Luís. Isso quando jogam! E quem pode me dizer, com precisão absoluta, quando foi a última vez que Comercial e Operário se enfrentaram num domingo à tarde, com o Estádio Morenão lotado, em Campo Grande?

Eu não tenho camisa do Barcelona. Nem desmarco compromisso pra ver jogo de Champions League. Não tenho nada contra. Só que prefiro saber quanto está Potiguar x Baraúnas, pelo grande derby de Mossoró.


Dedicado aos amigos Lilian Moreira e Walmiro Muzzi

terça-feira, 1 de março de 2011

O amigo imaginário

Muitas crianças têm amigos imaginários. Que surgem nos primórdios da infância e seguem com elas, lado a lado, até o início da adolescência. Em alguns casos, os imaginários vão até a vida adulta e, de tão íntimos, nunca mais deixam de existir.

Confesso que nunca tive um. Eu brincava sozinho, conversava sozinho e até tive planos de dominar o mundo em carreira solo. Mas, a mais pura verdade, é que jamais tive um amigo invisível. Não sei bem o porquê. Acho que é só um pedaço de fantasia que minha mente infantil nunca quis explorar.

Mesmo achando normal que crianças e adultos tivessem seus amigos fantasiosos, tem um caso que me incomoda muito. Ocorreu entre os anos 1950 e 60, mas até hoje me deixa com a pulga atrás da orelha.

Um tal de Coutinho era jogador profissional. Do famoso Santos, de Pepe, Mengálvio e Zito. Quem nunca ouviu falar do Santos de Pepe, bicampeão da Libertadores e do Mundial, em 1962 e 63?

Coutinho era atacante. Bom de bola, fez muitos gols ao longo da carreira, quase 400, se não estou enganado. Mas era louco de pedra. Doidinho da Silva. E tinha um amigo imaginário.

O amigo do Coutinho, segundo ele, era um mágico que fazia gols com as duas pernas, cabeceava como mestre, driblava com perfeição, tinha a força de um touro bravo e jogava com talento até no gol, se preciso fosse. Pra piorar a história, Coutinho dizia que fazia tabelinhas fantásticas com o tal imaginário. Vejam só isso...

Nos seus mais fortes delírios, Coutinho contava que o garoto fez mais de mil gols como profissional, ganhou três Copas do Mundo e parou uma guerra! Foi chamado até de rei do futebol por algumas pessoas. O tal moleque tinha um apelido, mas não me lembro qual era.

É como eu disse. Gosto dos amigos imaginários. Acho uma brincadeira saudável. Mas tudo tem limite nessa vida...

Os itinerantes

Todo mundo já ouviu falar do Matsubara, time simpático que hoje perambula pelas divisões inferiores do Campeonato Paranaense. O Japonesinho, como é carinhosamente chamado por seus poucos torcedores, era figura fácil na revista Placar, nos gols do Fantástico e nos antigos cartões da loteria esportiva. O pitoresco nome vem do fundador do clube.

Originalmente da cidade de Cambará, o Matsubara mudou-se para Londrina, voltou para Cambará e mandou seus jogos da terceirona paranaense do ano passado em Santo Antônio da Platina. Nunca me incomodei com esse jeito nômade do Matsubara, afinal o Nuno Leal Maia, meu ídolo, já treinou o time, nos anos 1990. E ele trabalhou em Vereda Tropical, a novela mais futebolística do Brasil, então, o Japonesinho tem crédito demais comigo.

Recentemente, Grêmio Barueri e Guaratinguetá também trocaram de cidades e viraram Grêmio Prudente e Americana, respectivamente. Aí sim eu fiquei incomodado. E ficaria mesmo se o Nuno Leal Maia tivesse treinado um dos dois. Não que eu esperasse algo diferente de clubes fundados por empresários, sem o menor compromisso com as populações das cidades. Mas é que é chato pra caramba ver um time subir de divisão com um nome, escudo e camisa, e no outro ano estar totalmente camuflado, dando a impressão de que está com vergonha de onde esteve nos anos anteriores.

Mas, o que me incomodou de verdade foi o caso do Ituiutaba Esporte Clube. Fundado em 1947, não é time de empresário nem de prefeitura nenhuma. É do povo da cidade, que sempre o acompanhou, desde os tempos em que se chamava Boa Vontade.

A história do Ituiutaba não tem nada a ver com a de Guaratinguetá ou Grêmio Barueri. O Boa tem raízes na cidade do triângulo mineiro. Tem uma torcida fiel, que realmente se preocupa e acompanha as notícias do time. E que agora, no melhor momento de sua história, quando o clube está na Série B do Campeonato Brasileiro, vê os dirigentes carregarem o velho Boa para Varginha, cidade a 700 quilômetros dali.

O povo de Varginha não tem culpa de nada. Mas é óbvio que não vai se envolver com o Ituiutaba, agora rebatizado de Boa. Os ituiutabanos ficaram órfãos do tradicional time da cidade. E não será pecado nenhum se torcerem contra o amado clube.

Eu vou torcer contra. Não tem como ser diferente. E, se os ingratos dirigentes do Boa contratarem o Nuno Leal Maia para treinar o time, eu vou perder um velho ídolo da infância.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Figuraças

Quem ri do goleiro do Guarani do Paraguai, que tomou uma sacola de gols do Cruzeiro esta semana, e usa camisas com estampas de figuras como Bart Simpson, Batman, Chapolin Colorado e companhia, não se lembra do Chilavert e do Jorge Campos. Eram tão folclóricos quanto ele, só que bem melhores dentro de campo. Pobre Aurrecochea!

Quem acha graça do presidente do IAPE do Maranhão, que invadiu o campo no jogo contra o Atlético esta semana, com uma pança descomunal e jeito de andar de pinguim, não se lembra de Vicente Mateus e Iustrich. Invadiam o campo do mesmo jeito, só que com mais romantismo. Pobre Pereirinha!

Estas figuras folclóricas do futebol existem desde sempre. Ou, pelo menos, desde os meus tempos de menino. Eu me lembro de três artilheiros nordestinos, que toda semana, faziam a festa nos Gols do Fantástico. Todos com nomes engraçados e o bom hábito de fazer muitos gols. Jacozinho, Dadinho e Mirandinha. Juntos, jogaram por 126 clubes e fizeram mais de cinco mil gols. Pelo menos, nas minhas contas.

Tinham também os estrangeiros. Ou alguém vai falar que o Ruud Gullit não era uma figuraça? O Alexi Lalas, com aquela cara de baixista do ZZ Top? E o Djibril Cissé, que parecia a reencarnação do Predador?

Reparando bem, todos os jogadores folclóricos que são lembrados até hoje, o são também pelo que fizeram dentro de campo. Se neles há alguma coisa bizarra, como o nome ou a aparência, não deixaram por menos, e fizeram seus gols e suas boas jogadas ao longo da carreira. Prova de que não adianta apenas querer entrar para a história das grandes figuraças do futebol. Querer é fácil, mas tem que poder. Aurrecocheas e Pereirinhas da vida estão aí para comprovar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sabores

Esta semana revivi um dos grandes sabores perdidos na minha memória gustativa infantil. O bom e velho Guaraná Jesus, do Maranhão. Lembro que meu pai me trouxe uma garrafinha na infância, um amigo uma lata na adolescência, e foi só. Mas ainda assim, o sabor ficou vivo, e é impressionante o arrepio do corpo e do cérebro, ao tirar das gavetas filmes há muito arquivados, como o cheiro da antiga loção de barbear do velho, a cor das paredes da casa em que eu morava e o sotaque do amigo maranhense que não vejo há mais de 20 anos. Tudo isto, com um simples gole no líquido cor de rosa, que reencontrei em São Luís.
  
O mais fantástico é pensar que outros gostos espalhados mundo afora podem trazer lembranças semelhantes. O problema é lembrar quais são. Outro refrigerante, com sabor do primeiro time do bairro? Algum tempero perdido da macarronada da querida avó, que coloca na mesa da sala tios e primos que não estão mais por aqui? A empada da cantina do primário, que você comia ao lado do primeiro amor da sua vida, mesmo sem ter a mínima noção do que era isso? Hummmm... você só vai lembrar quando senti-los de volta, deliciosos e históricos, dentro da boca, se é que ainda é possível revivê-los.

O mesmo acontece com os cheiros. Quantas vezes, você lá, distraído, na rua ou no trabalho, e passa uma pessoa com um perfume que lembra alguém? Como parar aquele turbilhão feroz que traz de volta passagens, capítulos, talvez vidas, de histórias esquecidas?

Mas não faz mal. Bom é lembrar. Pobre de quem não traz na mente cheiros e gostos. Que recordem semana passada. Ou o mês que se foi. Melhor ainda se forem de épocas em que você nem consiga precisar direito. Mas que foram bem vividas, com toda sua paixão. E todos os sentidos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Fidelidade

Quem ama não trai. Homem que é homem é fiel. Pode ter três esposas ao longo da vida, quatro namoradas ao mesmo tempo. Pode trocar de religião, xingar o padre, bater no pastor, agredir o rabino. Pode mudar de bairro. Pode escolher outra marca de cerveja e beber litros dela num boteco diferente. Só não pode trocar de time.

O cidadão que troca de time é mau caráter. Não tem respeito pela coisa mais marcante dos primórdios da sua infância. Trocar de time é como desonrar pai e mãe. É ofender ao próprio Deus todo-poderoso. Não se troca de time, em hipótese nenhuma, nem sob tortura. Nem que o velho esquadrão seja rebaixado para a Série D. Ou que perca de 7 x 0 pro maior rival. Você tem todo o direito de ter raiva do técnico, dos jogadores, do presidente, de quem quer que seja. Mas jamais pode trocar de time. A não ser que você seja um cafajeste, safado e sem moral.

Amar um clube é caminhar ao lado dele por toda a vida. Atravessando terremotos, tsunamis e chuvas de granizo. Lutando contra crises financeiras, dirigentes corruptos e derrotas vexaminosas. Quem não sofre nos períodos de tristeza, não tem o direito de comemorar os momentos de glória. Afinal, o torcedor fiel sabe disso: quem ama não trai.

O torcedor sincero

Crianças têm 30 milhões de defeitos. São barulhentas, teimosas, birrentas, melequentas e parecem ter a energia de dois exércitos em guerra. São manhosas, chiliquentas, irritantes, pirracentas, mas ninguém nesse mundo pode negar que são as criaturas mais sinceras do planeta.

É claro que existe um outro lado. Muito maior e mais intenso do que o das linhas acima. É como se fossem 40 milhões de qualidades. Crianças também são amorosas, criativas, ingênuas e curiosas. São puras, sagazes, doces e carinhosas. Mas, nada é mais forte do que a sinceridade que toda criança carrega dentro de si.

Tenho um amigo argentino. Veio para o Brasil no começo dos anos 1990 e nunca mais foi embora. Por causa do trabalho, foi ficando, ficando, ficando, até que ficou de vez. Casou-se com uma belo-horizontina e só vai em Buenos Aires para ver como anda a saúde da mamacita. Como quase todo hermano, é fanático por futebol. É torcedor do Racing e, quando teve seu primeiro filho, nada mais natural do que fazer o muchacho virar também um torcedor do time de Avellaneda.

Acontece que o pequeno Martín, tão brasileiro quanto você ou eu, nunca se simpatizou pelos 280 capítulos de história que o Racing do pai, Ramón, meu amigo, escreveu ao longo dos anos. Era mais do que natural, então, que o garoto torcesse mesmo para um time brasileiro.

Neste ponto é que a história fica boa. A mãe do Martín, Raquel, é atleticana desde duas gerações atrás. Avô, tios e pai conselheiros do Galo. Ela mesma nunca ligou muito pra futebol, mas, pra não contrariar os turcos, se diz a mais fanática das alvinegras. O Ramón, justamente pelo motivo contrário, que era irritar a turcaiada, inventou uma ligação afetiva entre o Cruzeiro e o zagueiro Perfumo, que jogou no Racing do seu coração e no Cruzeiro dos anos 1970, pra torcer pelo arquirrival da família da esposa.

O fato é que nem a Raquel nem o Ramón, com tantas outras coisas na cabeça, se preocuparam muito com o time de coração do pequeno Martín. Até que ele, logo nos primeiros anos de vida, se mostrou um verdadeiro fanático pelo velho ludopédio.

Martín foi atleticano e cruzeirense ao longo da infância, ora agradando aos tios, ora fazendo cara boa pro pai. Só que, nesta altura da vida, a família já morava num condomínio, no município de Nova Lima, cidade bem ao lado de BH e terra do tradicional Villa Nova.

O garoto, então, achou a solução para todos os seus problemas. Justificou pros tios e pro pai que tinha torcer prum clube da sua terra. Virou um fanático villanovense. Ganhou camisa do time, dada secretamente pela Raquel, e o Ramón, pra aumentar de vez a implicância dos cunhados e do sogro, leva o Martín em todo jogo do Villa. Ele sonha em jogar com a camisa 10 do Leão, num Mineirão lotado, contra Atlético ou Cruzeiro. Mas, se não der, vai se contentar apenas em ser presidente do Villa.

O Martín é manhoso, amoroso, irritante e puro de coração. E, dentro de toda sua sinceridade, é o mais fanático torcedor do Leão do Bonfim de Nova Lima!



Para Valter Lobato, pai de um garoto muito parecido com o Martín

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Medo

Criança tem medo de muita coisa na vida, tipo Bicho Papão, quarto escuro, mula sem cabeça, Tiranossauro Rex e outros monstros de arrepiar. Quando ela cresce um pouco e vira adolescente, os medos vão ficando mais concretos, como prova final, vestibular, separação dos pais, acidente de trânsito e coisas que são horripilantes mesmo.

Os medos são nossos amigos, na verdade. Fazem a gente se afastar do que pode nos machucar pra valer. E nos deixam numa faixa de conforto onde nada nem ninguém pode nos atingir.

Eu bem me lembro da minha infância e do que me assustava. Pra fugir de todos os fantasmas, imaginários e reais, eu ia jogar bola na rua. Ou então, torcia pra ser quarta ou domingo, pro meu pai ou meus tios me levarem pro Mineirão.

Na adolescência e na vida adulta as coisas não mudaram muito. Até hoje eu afogo os medos e problemas do dia-a-dia na pelada de segunda-feira, com os bons e velhos amigos. Ou quem foi que disse que cada homem crescido não tem seu Bicho Papão pessoal, cutucando terrível, que nem ferro de dentista, a cada descuido seu?

Mas o que me preocupa mesmo são as crianças de hoje. Como será que esses pobres meninos e meninas exorcizam seus medos? Jogar bola na rua é impossível. Carros velozes, sequestros, roubos, mil e uma formas de violência de todos os tipos...

Ir ao estádio, então, é ainda pior. Como levar uma criança ao campo com tanto arrastão, tanta pedra voando, tanta briga?

E assim, nossas crianças de hoje vão condensando seus medos em playstations, facebooks, i-Pods e solidão. Sem nenhuma válvula de escape. Pobres de nós...

Celso e Lucas

Celso Rezende é um cara tranquilo. Formado em educação física, é preparador físico e trabalha com o técnico Dorival Júnior há algum tempo. Já teve sob sua tutela atletas como Neymar, Paulo Henrique Ganso, Phillipe Coutinho, Guilherme, Marcelo Moreno e André, e hoje trabalha no Atlético, de Belo Horizonte, onde cuida de jogadores como Diego Tardelli, Magno Alves e o pentacampeão Ricardinho.

Lucas Silvestre é filho de Dorival Júnior. É outro cara tranquilo. E muito gente boa. Tem apenas 23 anos, mas já trabalha como auxiliar-técnico do pai. No Atlético. De Belo Horizonte. Lucas tem que matar um leão a cada dia pra mostrar sua competência e provar que tem talento pra viver no ingrato mundo do futebol, com suas próprias pernas, mesmo sendo filho de quem é.

No segundo semestre de 2007, portanto há apenas três anos e meio, Dorival Júnior era técnico do Cruzeiro. Da mesma Belo Horizonte. Rival do mesmo Atlético. Celso Rezende era preparador físico do clube e o Lucas, ainda na faculdade, acompanhava de longe, todos os passos do pai. Naquela época, o Cruzeiro venceu o Atlético duas vezes seguidas e os dois, Celso e Lucas, ficaram felizes da vida com os resultados.

Hoje os três, Dorival, Celso e Lucas, estavam no ônibus do Atlético que foi apedrejado por alguns marginais misturados na torcida do Cruzeiro, na chegada do estádio onde os dois times se enfrentariam. As notícias são boas. Os vidros se quebraram, mas ninguém saiu ferido. Alguns poucos estilhaços caíram no colo de Celso Rezende e Lucas Silvestre. Os mesmos que, pouco tempo atrás, estavam torcendo pro Cruzeiro vencer o Atlético, mas que hoje cometeram o gravíssimo crime de estar do outro lado. E por isso foram apedrejados!

Nunca vou entender isso. O cidadão sair de casa pra ver a coisa mais emocionante e divertida do mundo, que é o futebol, com a intenção de agredir, bater e até matar. Sorte grande que não aconteceu nada de mais grave com o Celso e o Lucas. Mas nem sempre é assim.

A gente tem que cuidar do nosso velho ludopédio, antes que acabem com ele.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Heróis e vilões

A vida é feita de heróis e vilões. Ou você é muito bom ou é muito mau. Ou salva lindas mocinhas ou sequestra velhinhas indefesas. Ou é benfeitor de uma instituição de caridade ou arranca máscaras de oxigênio de pacientes em estado terminal.

Pelo menos foi isso que me ensinaram quando eu tinha cinco anos. Não tinha meio termo. Era amor ou ódio. Super Homem e Lex Luthor. Batman e Coringa. Homem Aranha e Duende Verde.

Levei isso para as coisas que gostava e tudo se refletiu mais claramente no futebol, claro. Sou da geração que sofreu com a perda da Copa de 1982. Eram heróis - ainda que não necessariamente vitoriosos - Zico, Falcão, Sócrates, Éder e companhia, enquanto os malditos vilões eram basicamente Paolo Rossi e Dino Zoff.

Acontece que me contaram que o Dino Zoff era um cara extremamente bacana. E que o Paolo Rossi tinha comido o pão que o diabo amassou por causa de um escândalo na loteria italiana, no começo dos anos 1980. Então, automaticamente passei a admirar e gostar dos dois grandes vilões da minha infância.

Depois disso passei a enxergar com outros olhos todos aqueles que eram considerados malditos no futebol. O maior que vi foi o ponta-esquerda Ado, do Bangu. Ele perdeu o pênalti que deu o título do Campeonato Brasileiro de 1985 ao Coritiba, no jogo sem graça mais emocionante da história.

Na minha lembrança, todo mundo torcia pro time carioca, menos eu. Na hora em que o Ado perdeu o pênalti, eu achei bom. Mas bastou o Coxa ser campeão e a câmera dar um close nele, pra eu me lembrar que o Ado era tão humano quanto eu, que devia estar se contorcendo em dores e que jamais teria espaço na minha galeria de vilões. Ado virou herói a partir daquela hora. Porque, ao invés de comemorar com os coxa-brancas, tão distantes do eixo como nossos times mineiros, eu queria mesmo era consolar o pobre diabo que tinha acabado de entrar pra história.

Hoje o Ado vive anonimamente no Rio de Janeiro, tentando seguir na carreira de treinador. Sem sequer imaginar que é heroi de um garoto que cresceu torcendo pra que ele voltasse no tempo e acertasse aquele pênalti, ainda que fosse apenas nos seus sonhos.

E vem aí mais um clássico...

Maravilha! Sábado tem Cruzeiro e Atlético na Arena do Jacaré. Peraí... vamos começar o post de novo.

Maravilha! Domingo tem Cruzeiro e Atlético no Mineirão. Ops... o certo é o primeiro, né? Mas tem nada não. É temporário. Enquanto reformam o Mineirão, vamos vivendo nosso jogo principal em Sete Lagoas, Uberlândia, Ipatinga... não importa, a bola tem é que rolar, seja onde for.

Quando eu era moleque, a gente ficava tenso a semana inteira do clássico. O jogo podia valer pelas quartas de final do Brasileirão, como em 1986, ou pela repescagem da fase A do grupo 3 do segundo turno da chave amarela, como deve ter sido em algum ano em que não me lembro bem ou que acabei de inventar, tanto faz.

O certo é que, naquela semana, a garotada apostava lanche, combinava caravana pra ir junto ao Mineirão, ia pra escola com a camisa do time de coração e se dividia entre alvinegros e celestes até na fila da prova oral.

As coisas não mudaram muito, agora em 2011. O frisson do grande clássico de Minas continua o mesmo. Vejo o pessoal na redação agitado, as ruas de BH coloridas e o clima totalmente envolvido no jogo, ainda que ele seja disputado em outra cidade.

A moçada da minha turma segue do mesmo jeito. Ou quase. Hoje apostam cerveja, ao invés da merenda escolar. Os cruzeirenses vão se organizar pra ir juntos até Sete Lagoas, pois o mando de campo é do time azul, e só eles vão ter acesso ao estádio. Enquanto isso, os atleticanos vão combinar a casa de alguém, ou um bom bar, para ser a sede da torcida. Na próxima vez, eles é que vão encher a Arena. Coisas do futebol moderno...

Tem Cruzeiro e Atlético sábado! Maravilha... Tomara que a violência e todas as outras coisas ruins do futebol moderno fiquem fora do espetáculo. Porque no domingo a vida vai continuar e todos nós, cruzeirenses e atleticanos, vamos seguir lado a lado, o mesmo caminho do dia-a-dia. Futebol é o melhor jogo do mundo. Mas não passa disso.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

William Morais

A ideia de fazer este blog sempre esteve ligada a coisas boas. Memórias, histórias, piadas e brincadeiras, a maioria delas relacionadas ao futebol e ao que uma criança (no caso eu, 30 anos atrás) enxergava sobre o assunto.

Tudo o que escrevo aqui tenta ser bem parecido com o que sou. Bem-humorado, otimista e feliz da vida. Falo muito dos meus pais, irmãs e amigos porque ainda não sou casado e nem tenho filhos. Então, é essa a visão mais íntima que tenho da vida e das minhas brincadeiras ludopédicas.

Hoje, porém, não dá pra brincar nem sorrir. Acabo de receber a notícia de que um jogador de 19 anos de idade foi covardemente assassinado em Belo Horizonte. William Morais é o nome dele. Veio do Corinthians para o América em janeiro.

Dezenove anos! Imagino os sonhos que tinha esse moleque. Se eu, com 34, ainda penso em dar um chapéu no Messi e dominar o mundo, o que falar de um garoto cheio de saúde e talento?

Quantos sonhos de Mineirão lotado... Maracanã, Camp Nou, San Siro? Quantos Américas, Lyons, Valencias, Bayerns? Quantos gols, dribles, quantas convocações para a Seleção?

Fica um abraço para o pai, para a mãe e para os irmãos do William. E o desejo de que consigam entender os desígnios de Deus e encontrar forças para seguir em frente...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Milonga del moro judio

Resgatando velhos arquivos no computador aposentado da casa dos meus pais, descobri o texto abaixo, escrito em 2006 e publicado num blog que não existe mais. Não tem nada a ver com o nosso Velho Ludopédio, mas, na iminência de mais uma guerra no mundo, resolvi publicar aqui. A diferença é que antes eu mandei só a letra da música. Agora vai só o vídeo.

Voltamos a qualquer momento com nossa programação normal.
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Eu sempre entendi as guerras. Explico-me: não concordo com elas, nem com os motivos - em 100% dos casos banais - mas entendo o porquê de um povo matar o outro. Explico-me de novo: entendo a visão deles, mas não concordo nem ratifico os motivos.

Aliás, achava que entendia. E nada como a arte pra te fazer abrir os olhos e mudar sua mesma velha opinião formada sobre tudo.

O cantor uruguaio Jorge Drexler tem uma música chamada "Milonga del moro judio" ou "Milonga do mouro judeu", que conta a história de um árabe judeu que vive entre cristãos e simplesmente não consegue odiar nenhum povo nem matar em nome de nenhum Deus, de nenhuma religião ou de um país qualquer. A canção está no disco "Eco", de 2004.

O tal mouro me fez pensar: afinal, se temos 98% de DNA em comum com os ratos, o que dizer do DNA de outro povo? Ele se torna distinto do nosso se é de outra religião, outra raça ou de outro país? E mesmo que se tornasse, isso seria motivo para ódio e guerra?

Já não mais entendo guerras sobre domínio territorial, diferenças religiosas e - principalmente essa - sobre petróleo. Já não entendo extermínio nem genocídio. Já não entendo os homens-bombas, os kamikazes nem as medalhas de condecoração. Nada mais sei sobre nada bélico, seja um míssil de longo alcance ou um bodoque.

Vale-me o consolo de que nunca é tarde pra mudar suas ignorantes ideias acerca das pessoas e do mundo. Ninguém é obrigado a ser eternamente estúpido...




terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Rivalidade

A rivalidade é uma das coisas mais gostosas do futebol. Em algumas ocasiões, comemorar uma derrota do seu principal adversário é tão bom quanto celebrar um triunfo do seu time. Ganhar deles então nem se fala! É motivo pra uma semana inteira de festa, com direito a gozações no trabalho, na escola e na pelada do bairro. E até mesmo nas festas de família. É só nestas horas que é bom ter um cunhado fã do arquirrival.

Um torcedor fanático não usa as cores do rival em nenhuma hipótese. Não chama o adversário pelo apelido carinhoso usado por sua torcida. E nem elogia os jogadores do opositor. Por mais que sejam titulares da seleção, não passam de verdadeiros pernas-de-pau!

E isto passa de pai para filho. Desde os primórdios da infância. Todo moleque de quatro ou cinco anos sabe disso. Um guri gremista jamais usa vermelho nas festinhas do prédio. Um pequeno cruzeirense nunca chama o Atlético de Galo. E por mais que o Neymar arrebente na seleção Sub-20, ele, em tempo algum, será elogiado por qualquer corintianinho, que desde sempre se diz maloqueiro e sofredor.

Ter um rival e cultivar a rivalidade é uma coisa saudável. É o que te faz querer ganhar dele, superá-lo em tudo, ser melhor que ele em todos os detalhes e aspectos possíveis. É o que fez o Coritiba dar uma boa guaribada no Couto Pereira, para que ele ficasse do nível da Arena da Baixada. A rivalidade fez o Fluminense montar um super time para ganhar o Brasileirão um ano depois do Flamengo ter ganhado. E é o que motivou o Bahia a investir tanto a ponto de trocar de lugar com o Vitória nas duas principais divisões do futebol brasileiro.

Mas tem que parar por aí. Rival não é inimigo. Rivalidade é bem diferente de inimizade. Ninguém precisa brigar por causa de futebol. Ninguém precisa agredir, machucar ou matar. Não faz sentido usar violência contra um torcedor de outro time, que pode ser seu colega de trabalho, vizinho ou até mesmo seu primo.

Seu irmão ou sua esposa podem torcer pra outro time. Até seu pai pode. Neste caso, na sua infância vai ter sido outro a te ensinar as regras de como tratar um rival. Assim pode ser melhor ainda do que ter aprendido com seu velho. Porque, tanto na teoria como na prática, vai ser impossível odiar um adversário que só te ensinou e te deu amor.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nas ondas do rádio

Eu imagino que todos os jornalistas esportivos do Brasil tenham ingressado na profissão inspirados pelo rádio. Mesmo os que não trabalham em alguma emissora que navega ondas radiofônicas por aí, como eu.

Generalizo tanto e de forma tão radical porque vejo nos meus colegas de redação e de coberturas Brasil afora, a mesma paixão, ao ouvir algum gol do passado na voz de um antigo locutor.

É instintivo entre nós tentar imitar o ídolo das velhas ondas curtas. E tem sempre um repórter, câmera man ou operador de som que consegue a entonação certa, o cacoete vocal exato ou o tom afinado que deixa a brincadeira de clonar a voz do velho narrador quase idêntica.

Trata-se de uma brincadeira educacional, para crianças de todas as idades. Mesmo que nenhum professor, pedagogo, ou o próprio MEC, reconheça isto. Ainda.

Imagine uma turma de uns oito, nove garotos, entre sete e onze anos. Todos na casa de um deles. Dia de chuva, sem nada pra fazer fora dali. A opção óbvia é um campeonato de jogo de botão na sala.

Não importa a fórmula de disputa, o certo é que vai ter jogo pra caramba pela frente naquela tarde chuvosa. Enquanto uns jogam, outros brigam e algum gordinho atrevido tenta assaltar a geladeira da casa do colega, o narrador-mirim, futuro jornalista, narra a partida e imita seu locutor preferido. Alberto Rodrigues, Willy Gonzer, Milton Naves, Oswaldo Reis, tanto faz, pode ser qualquer um. O que vale mesmo é a diversão de se sentir a voz daquele espetáculo fantástico.

Se a maioria dos colegas foi embora antes do fim do torneio, e, se o próprio time não se classificou nem para a repescagem do grande campeonato, pouco importa para o jovem locutor. A emoção de narrar aquela final, com riqueza de detalhes, bordões e brados heróicos já valeu a diversão da semana. Quem sabe isso, um dia, não vira profissão?


Dedicado a todos os jornalistas esportivos Brasil afora

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Robin Hood

Ouvia dizer, desde os meus tempos de menino, que um tal Robin Hood roubava dos ricos para presentear os pobres. Eu achava aquilo muito legal e justo, mesmo sem nunca ter ouvido alguém falar de Karl Marx ou mais-valia que o valha naqueles meus tempos de jardim de infância.

Era lógico pra mim àquela época. Se uma pessoa tinha um milhão de moedas no banco e a outra só levava dez nos bolsos, por que não dividir a riqueza das duas, em partes iguais, para que todos ficassem felizes do mesmo tanto? A injustiça do mundo acabaria ali. Fácil assim.

Aprendi que as coisas não são desse jeito na vida real. E, se meu ídolo Robin Hood existiu mesmo, deve ter feito sucesso na Floresta de Sherwood em 1400 e alguma coisa, mas, certamente, não teria paz no mundo de hoje, que conheço bem.

O fato é que eu comecei a gostar dos Robin Hoods da vida moderna. Principalmente os da bola. Sim, daqueles times pequenos que ganhavam dos gigantes do futebol brasileiro para depois perder para outros menores que ele.

O Botafogo da Paraíba mesmo é um baita Robin Hood. Tem nome pomposo, de bairro chique e time campeão no Rio de Janeiro. Mas, na verdade, tadinho, só é forte mesmo lá em João Pessoa, e olhe lá!

Uma vez, em 1980 – e isto é história verídica! – o Botafogo genérico foi ao Rio de Janeiro que inspirou seu nome. O jogo era simplesmente contra o Flamengo, que venceria o Brasileirão alguns meses depois e o Mundial no ano seguinte, com praticamente o mesmo time.

E não é que o Fogão paraibano fez 2 a 1 no Mengão de Zico, Nunes, Adílio & Cia., em pleno Maracanã? Tudo isso para, alguns dias depois, perder de seis para a Ponte Preta, em Campinas.

Que time grande no mundo nunca sofreu com o seu Robin Hood pessoal? E quantos Jabaquaras, Democratas, Bonsucessos ou Aymorés da vida não viveram seus dias de Príncipes dos Ladrões mundo afora?

Eu só sei que morro de rir com os Robin Hoods ludopédicos até hoje. Porque parece que, mesmo por um breve momento, parte das injustiças do mundo foram resolvidas. E que algum time de dez moedas nos bolsos é maior do que aquele com um milhão no banco.

sábado, 15 de janeiro de 2011

A zebra

Eu torço pra um time grande no Brasil. Fundador do Clube dos 13 e coisa e tal. Presente em todos os almanaques e álbuns de figurinhas possíveis na minha infância. Sala de troféus abarrotada. Galeria de ídolos com mais de 50 tiozinhos com foto na parede. Meu time é tão bom que tinha que disputar o Campeonato Europeu, a Liga Universal ou a Copa Interclubes das Galáxias!

Mas como não existiam estes certames fantásticos na minha infância – e acho que não os inventaram até hoje – eu passava metade do ano vendo os campeonatos regionais. E torcendo pra que algum Alfenense, Goytacaz, Lajeadense, Pato Branco ou XV de Jaú da vida ganhasse dos nossos times grandes na rodada de domingo.

Tudo por causa da zebrinha do Fantástico. Aquela zebra fez parte do imaginário de uma geração! Bastava o Olaria sair na frente do Vasco ou o Galícia marcar um gol no Bahia, pra turminha com menos de dez anos de idade ficar torcendo pra que aquele resultado se mantivesse até o final. E todo mundo cruzava os dedos pra zebrinha aparecer depois dos Trapalhões e acabar de povoar a fantasia da infância com o improvável resultado e a voz aguda gritando que era zebra.

Acho que é por isso que eu gosto tanto de times como Caldense, Friburguense, Glória de Vacaria, Toledo e Taubaté até hoje. Eram eles que, naquela época, ouriçavam a zebrinha da TV e faziam a gente morrer de rir.

Hoje, a zebrinha não existe mais. Aliás, nem a loteria. Ou alguém aí fica de olho no cartão achando que fez os treze pontos?

Se você torce pra algum clube fundador do Clube dos 13, bem vindo a minha vida. Eu também torço. Mas vou torcer pro seu time perder na estreia do Estadual. Não joguei na loteria, mas vou lembrar da zebrinha rindo de você...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Festa de gala

O que você gosta de fazer pra se divertir? Teatro, cinema, show de rock, ópera, samba de roda? Gosta de sair pra jantar? Passear na cidade vendo as luzes de natal? Ou prefere ficar em casa tomando um vinho e vendo um filme?

E criança? Como se diverte? Clube, parque, shopping, casa dos amigos? Eu gostava mesmo era de ir ao Mineirão. A violência era bem menor que a de hoje, os preços de tudo também. Então era assim. Não consigo me lembrar nem contar todas as vezes que meu pai me pegou pela mão e me levou pro velho estádio da Pampulha pra ver nosso time de coração.

A preparação praquilo tudo era algo sagrado. Um ritual praticamente. Eu colocava a camisa do esquadrão, ligava o radinho no volume máximo pra ver se a pilha estava boa e calçava o velho kichute porque, nunca se sabe, sempre podia aparecer uma peladinha com os velhos copos parafinados no intervalo do jogo, no corredor dos bares.

Cada engarrafamento pra chegar ao estádio era uma festa. Bandeiras, gritos, ônibus apinhados de gente. Meu pai sem paciência e eu achando tudo aquilo a coisa mais linda do mundo.

Subir os degraus de acesso à arquibancada do estádio e me deparar com aquele latifúndio verde era uma coisa sem explicação. Se isso me emociona até hoje, marmanjo formado e com quase oitocentas visitas ao Mineirão, o que dizer da época em que estava nas primeiras dez?

O cansaço de passar quase seis horas fora de casa era quase nada pra uma criança que tinha a energia de dominar o mundo e os sonhos de um dia ser o camisa 10 daquele espetáculo tão gigantesco.

Não tem dia nesta vida em que eu não agradeça ao meu velho pai por ter me proporcionado aqueles momentos tão fantásticos que, além de nos aproximar tanto, ajudaram a construir minha personalidade e ser um pouco do que hoje sou.


Dedicado a meu pai e a meu amigo Eugênio

Par ou ímpar

Quando você é criança, e joga bola na rua, ninguém é dono do seu passe ou, na linguagem moderna, dos seus direitos federativos. Você joga num time hoje, noutro amanhã e assim vai vivendo seus momentos de craque juvenil no seu bairro. Quando a coisa fica mais séria, você e mais uns seis ou sete compram umas camisas iguais e montam um time qualquer, que, anos mais tarde, nas suas delirantes memórias, vai ser aquele esquadrão imbatível que ficou 10 anos sem perder pros moleques da rua de baixo.

Mas isso é pra poucos. A maioria fica mesmo é nas peladinhas do dia-a-dia. No junta-junta depois da escola, quando o dever de casa já está pronto. Ou não. Chegam 14 pirralhos, é menino que não acaba mais. E o dilema é dividir a turma entre dois times de sete, de modo que a coisa fique equilibrada. Porque ganhar fácil é tão chato quanto tomar uma goleada humilhante.

A solução então é o bom e velho par ou ímpar. Dois jogadores que têm mais ou menos o mesmo talento com a bola nos pés decidem na sorte quem começa a escolher, entre o restante do grupo, os outros seis do seu time. Até hoje tem amigo meu que jura que par ou ímpar não é sorte e que existe ciência exata que explique e técnica que facilite a vitória no jogo. Vá lá...

E é aí que começa o drama. Eu não passei por este constrangimento, graças a Deus. Se nunca fui um Maradona, tinha meus momentos de Careca. Fazia meus golzinhos e raramente não era escolhido até a segunda rodada da montagem dos times. O problema era ver a cara dos amigos que ficavam pra trás. Os jogadores se enfileirando atrás do carinha do par ou ímpar e os pernas-de-pau ficando lá no meio. Todo mundo olhando pra eles com cara de desprezo. Ou dó. Porque nas rodadas finais se escolhe o menos pior, já que os craques estão devidamente entrosados com o resto do time.

Aquilo era humilhante. Mais ou menos como levar o fora da menina querida na hora de dançar a música lenta na festinha americana de sexta-feira.

Teve um dia que eu bati o par ou ímpar e escolhi o Claudão pro meu time. Se ele, que é meu amigo até hoje, ainda é meio bobo, imagina 30 anos atrás! A gente perdeu o jogo feio. Acho que foi 8 a 0, com uns quatro gols contra do Claudão. Mas ele ficou tão feliz em ser o primeiro escolhido no par ou ímpar, que eu me senti como se aquilo tivesse sido uma goleada pra gente.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mais importante que o futebol

Tem uma frase, oficializada como do treinador Paulo Autuori, que diz que 'entre as coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante'. Concordo tanto que ela está na apresentação da minha monografia de conclusão de curso.

E por ser tão importante pra mim, desde a primeira infância, o futebol acabou evoluindo na minha vida com o passar dos anos. Foi a principal brincadeira, a diversão do colégio, o esporte que tentei jogar na adolescência e o objeto de estudo na faculdade, até virar a razão principal da minha profissão e o meu ganha-pão. Ou seja, não preciso explicar ou tentar mensurar o tanto que me emociono quando vejo 22 marmanjos correndo atrás de uma bola num campo verde.

Mas existem coisas mais importantes na vida. E mais tristes do que um grito de gol. Enquanto o Ronaldinho Gaúcho era apresentado na Gávea, 271 pessoas morriam, um pouquinho ao norte dali, afogadas num mar de lama.

Eu não sou hipócrita. Se o Gaúcho viesse pro meu time, eu decretava feriado nacional e ia tomar cerveja no meio da multidão também. Já vi amigo meu fazer isso pelo Márcio Mexerica e pelo Apodi. Mas hoje não.

Vivemos um típico dia de janeiro no Brasil. Sol, calor e festa. E escombros rolando morro abaixo arrastando tudo o que tinha pela frente. Fizeram carnaval pra receber um craque de futebol. Eu não faria. Sem hipocrisia e falso moralismo. Porque eu ainda acho que existem muitas coisas mais importantes na vida que o futebol.

Chorar

Duas cenas de choro me marcaram nessa semana ludopédica. Primeiro o da Marta, ao receber pela quinta vez consecutiva o prêmio de melhor jogadora do mundo. Depois o do Thiago, zagueiro do time júnior do São Carlos, logo após fazer um gol contra bisonho, que acabou desclassificando seu time da Copa São Paulo, aos 47 do segundo tempo.

Marta saiu de Dois Riachos, no interior de Alagoas, e conquistou o mundo. Pentaconquistou o mundo. Contrariando todos os prognósticos que só a lógica da bola pode desafiar. E por isso ela chorou.

Thiago sonhava com um espaço no tão concorrido futebol profissional. E só uma reviravolta muito grande pode dá-lo uma chance real depois da trapalhada que fez. Ele sabe disso. E por isso também chorou.

Os dois choros foram legítimos. Por motivos e sentimentos totalmente opostos. E isso é o mais fantástico deste esporte.

Eu já vi muita gente chorar por causa de futebol. Já tive pena de quem chorava. Já tive raiva. Já achei graça. E já tive inveja. Sim, por não conseguir me emocionar daquele jeito naquela hora com aquele jogo.
   
Também já chorei várias vezes. Feliz e orgulhoso como a Marta. Desapontado e envergonhado como o Thiago. Mas não faz mal. Chorar é bom. Triste mesmo é não chorar. Triste é passar impune e ileso por esse fascínio universal chamado futebol.

Viva a Marta, a melhor jogadora do mundo! E viva o Thiago, que não teve vergonha em desabafar sua emoção!