quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

João e Tobias


I

João e Tobias eram dois jornalistas esportivos de Belo Horizonte. Trabalhavam em jornais diferentes, mas o dia-a-dia de pautas comuns fez com que se aproximassem e se tornassem amigos. No começo, uma amizade casual, que, aos poucos se tornou sólida e sincera. Tanto que, com o tempo, se tonaram companheiros inseparáveis, parceiros para todos os programas e ocasiões.

Em julho de 1976, os dois foram para a Argentina, como enviados especiais dos jornais, para cobrir o segundo jogo da final da Taça Libertadores, entre Cruzeiro e River Plate. Se o time mineiro conseguisse pelo menos um empate, repetiria o feito que apenas o Santos de Pelé tinha obtido até então e seria campeão da América.

Empolgados com a viagem, os dois prepararam as malas, os passaportes e embarcaram para a primeira experiência internacional de ambos. O cruzeirense João levava na mala também a expectativa de ver seu time campeão, enquanto Tobias, atleticano, não negava que iria torcer fervorosamente para o River.

A cobertura em Buenos Aires correu de forma tranquila e normal. O time argentino venceu a partida, o que obrigou a realização de um jogo-desempate, dali a dois dias, em Santiago, no Chile. Apressados para voltar ao hotel, arrumar a bagagem e partir para o aeroporto, João e Tobias sequer imaginavam que, em poucos instantes, suas vidas iriam mudar para sempre, ao entrar num táxi na porta do Estádio Monumental de Nuñez.


II


João e Tobias, dentro do táxi, nem viram o estranho caminho tomado pelo motorista, de tão envolvidos que estavam na conversa sobre o jogo e os planos de seguir para o Chile. Do estádio do River, no bairro de Nuñez, até o hotel onde estavam hospedados, no centro da cidade, o tempo de deslocamento não poderia passar de 25 minutos. Foi João quem primeiro notou pela janela a rodovia escura, que, definitivamente, não estava no trajeto de volta para o hotel.

Só então os dois perceberam a gravidade da situação. Numa Argentina politicamente instável, governada por militares e tomada pela insegurança, sequestros eram crimes tão comuns quanto o desaparecimento de jovens, e, ainda que não tivessem nada a ver com aquilo tudo, João e Tobias começaram a temer pelo que lhes poderia acontecer. Ainda mais quando o táxi rapidamente entrou por uma estrada de terra e parou no que parecia ser uma fazenda abandonada.


III


João e Tobias foram arrancados do carro por dois homens de verde-oliva na roupa e vermelho-sangue nos olhos, e jogados no chão, antes que pudessem falar qualquer coisa com o taxista. Tentaram explicar que eram brasileiros e que estavam no país apenas por causa do jogo do River Plate. Os soldados riram alto, dizendo que ali só tinha torcedores do Boca.

Entre chutes, socos e humilhantes tapas na face, os dois foram carregados para dentro do velho prédio. Nunca mais se viram. João foi levado para o segundo andar, um amplo salão escuro e sem ventilação, enquanto Tobias foi jogado numa espécie de porão, úmido, gelado, e com cheiro de morte, no subsolo.


IV


João passou horas encolhido num canto, sem enxergar quase nada, ouvindo gritos de horror que vinham dos andares de baixo. Com as mãos e os pés amarrados atrás do corpo, percebeu que era melhor não tentar se mover, porque ficando parado ele conseguia aliviar a dor. Depois de duas intermináveis sessões de interrogatório com os militares, onde mal conseguia falar, não tinha noção de quantas feridas e hematomas trazia no corpo.

A sensação de João era a mais terrível possível. Porque tinha entendido na conversa dos presos argentinos que o andar de cima era brincadeira de criança perto do que acontecia no subsolo, que chamavam de calabouço. Se ele mal conseguia abrir os olhos e respirar, depois de tanta pancada, o que seria de Tobias, mais fraco e frágil fisicamente, que caía de cama com um simples resfriado, no meio de alguns dos psicopatas mais cruéis e violentos da América Latina?

O cansaço fez João desfalecer, já que dormir era impossível, com tantas dores, frio e o que era pior, a agonia de não ter notícias de Tobias, que estava sofrendo ainda mais que ele. Um balde de água gelada o despertou. João foi levantado por dois soldados magros, que fumavam e davam risadas, como se estivessem num parque numa manhã de domingo. Foi jogado num banheiro onde tomou o pior e mais doloroso banho de sua vida. Recebeu roupas limpas e foi colocado num furgão, junto com outros sete companheiros de segundo andar, todos argentinos.


V



João tentou saber de Tobias, enquanto deixava o prédio, mas foi ignorado.


VI


O caso dos dois jornalistas brasileiros presos na Argentina ganhou repercussão mundial em 1976. No ano seguinte, o governo do país vizinho reconheceu o erro cometido, pediu desculpas formais e com a cumplicidade e a boa vontade dos militares brasileiros, o sofrimento de João e Tobias caiu no esquecimento.

Menos para João, é claro, que nunca se esqueceu de um segundo do que viveu, até porque o olho direito cego não permitia tal omissão. Tobias não foi mais visto, e como seu corpo nunca foi achado, foi dado como desaparecido. João fez tudo o que pôde, mas, sem contar com o apoio das autoridades brasileiras, sua missão foi se tornando cada vez mais difícil, ainda que nunca tenha desistido de encontrar o velho amigo Tobias.


VII


João nunca mais voltou à Argentina, até que em fevereiro de 2013, o Atlético foi ao país disputar um jogo pela Taça Libertadores. Já aposentado, mas ainda em atividade no mesmo jornal onde começara a carreira profissional quase 40 anos atrás, João embarcou para Buenos Aires, para cobrir o jogo e prestar a última homenagem a Tobias.

Só então ele se lembrou que nunca havia comemorado o título do Cruzeiro em 1976 e do quanto falaria no ouvido do amigo, torcedor do time rival, se tivesse tido a oportunidade.

João acompanhou o jogo do Atlético, em Avellaneda, cidade da grande Buenos Aires, e mesmo cruzeirense, ficou feliz com uma vitória do Galo, imaginando a alegria que Tobias sentiria se ali estivesse.

Antes de voltar pra casa, foi ao estádio do River Plate, o mesmo onde trabalharam no jogo de 1976. Colocou flores atrás de um dos gols, rezou para Tobias e, pela primeira vez na vida, teve plena certeza de que nunca mais veria o amigo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Orêia


I

Orêia sempre foi o melhor jogador da cidade. Sabia driblar, chutar, cabecear e lançar. Era veloz, inteligente, hábil e forte. Aguentava pancadas dos zagueirões como poucos, mesmo com o corpo magro e esguio. E tinha o raciocínio rápido como a luz, a ponto de imaginar o final de uma jogada antes mesmo da bola chegar aos seus pés. Enfim, Orêia nasceu para ser jogador.

Com tanto talento, Orêia logo se destacou nos times da cidade, onde ganhou e foi artilheiro e melhor jogador de todos os campeonatos que disputou, mesmo muito mais jovem do que os adversários e companheiros. Não demorou para que fosse convidado a fazer um teste em um grande time da capital do estado, com apenas 15 anos de idade.

Passar na peneira e ficar no clube foi moleza para o garoto. Difícil foi evitar as gozações com a orelha grande, motivo do apelido e de tantas piadas ouvidas durante toda a vida. O tema foi tão recorrente que, ao longo dos anos, deixou de incomodar Carlos Augusto, que aceitou a alcunha como identidade natural e virou Orêia até para os familiares.

Com o passar do tempo, Orêia foi fazendo o que todos esperavam dele nas categorias de base do clube da capital. Foi campeão, artilheiro e o grande craque do time. Até que chegou a hora de ir para o profissional. Mas eis que o treinador, um desses moderninhos de terno, gravata e gel no cabelo, implicou com o apelido do rapaz. Afinal de contas, no mundo globalizado não há espaço para um Orêia brilhar. Ainda mais com um nome bonito desses. Carlos Augusto.

- Orêia é pra roça, pra cidade onde você nasceu. Aqui não. Aqui é Carlos Augusto. Assim você vai longe! Vai chegar à Seleção e ao Real Madrid!

Sem se importar com detalhes fúteis como este, Orêia não ligou para a mudança no nome e, já no primeiro jogo como profissional, assinou a súmula como Carlos Augusto, com a pompa de estrear com a camisa 10 e o estádio lotado.

Orêia, aliás, Carlos Augusto, até que não foi mal na partida. Correu e se esforçou muito, mas parece que alguma coisa estava faltando. O brilho que o menino sempre teve não apareceu no adulto, que foi apenas mais um em campo. Torcida, imprensa e os dirigentes do clube acharam normal, porque era apenas a primeira partida e Carlos Augusto só tinha 18 anos. Tamanha responsabilidade assustava mesmo.

A temporada seguiu, o campeonato acabou, veio o ano seguinte, mais um, e nada do Carlos Augusto deslanchar. O futebol espetacular e vistoso deu lugar a um jeito de jogar burocrático e enfadonho, até que a paciência do clube acabou e a jovem promessa foi vendida para um time de outro estado, da segunda divisão. No dia em que foi embora, o treinador engravatado sequer apareceu para se despedir.


II


Sem o moral e a festa dos tempos de glória, Carlos Augusto chegou ao novo clube. Não foi o primeiro e nem seria o último a fracassar numa grande equipe da capital, era a opinião de todos. No dia do primeiro jogo, o novo treinador chegou perto de Carlos Augusto e murmurou ao pé de seu ouvido:

- Você sempre jogou bola como Orêia. Nem sua mãe se lembrava que seu nome é Carlos Augusto. Deixa disso. Aqui você vai voltar a ser o Orêia.

Ainda que continuasse não ligando pra essas coisas, o ex-atual-Orêia arrebentou com o jogo. Fez três gols e deu os passes para os outros dois. E assim foi durante todo o ano. O time foi campeão, voltou para a primeira divisão e Orêia foi o melhor jogador e artilheiro do campeonato. Mas nada disso bastou para convencer os críticos que Orêia tinha potencial para jogar num grande clube.


III


Quis o destino que a estreia do time de Orêia na elite fosse justamente contra o técnico almofadinha. O treinador, que havia feito Orêia mudar de nome, teve que ver, perplexo, o antigo Carlos Augusto fazer os quatro gols de um humilhante 4 a 0, com direito a olé e tudo mais.

O resto da história todos nós conhecemos. Orêia foi campeão do mundo pela Seleção e se tornou ídolo do Real Madrid, exatamente como o treinador moderno, alguns anos antes, havia previsto o destino de Carlos Augusto.

Ainda bem que ainda existem vários Orêias por aí. Assim como existiram Beto Fuscão, Valdemar Carabina, Dadinho, Fio Maravilha, Dedé de Dora e Pirulito. E existiram Pelé, Tostão, Garrincha, Zico e Canhoteiro.

Que o futebol e a vida estão se tornando cada vez mais chatos não há como negar. Mas é bom saber que para cada Diego Magalhães que surgir vai sempre haver um Flávio Caça Rato.


* Para os amigos Dany Starling, Héverton Guimarães, Guilherme Amaral e Emerson Rodrigues

sábado, 19 de janeiro de 2013

Garrincha


Garrincha foi um personagem fundamental no meu imaginário infantil. Eu não sabia nada sobre a vida, tampouco sobre futebol, assuntos que não domino até hoje, é verdade, mas, desde aquele tempo, eu tinha certeza que Mané era um cara diferente. Não porque eu fosse uma criança especial, com poderes telepáticos ou inteligência acima da média, mas sim porque Manuel Francisco dos Santos era o único assunto que meu pai e meu avô materno debatiam sem discussões nem problemas, já que eram torcedores de times rivais. Então, era natural que Mané Garrincha se tornasse uma figura tão fantástica, doce e simpática na cabeça de um garoto que era fanático por futebol antes mesmo de conseguir falar mamãe e papai dentro do berço.

Deve ser por isto que me lembro de cada detalhe do dia em que Mané morreu. Era janeiro e eu passava as férias no interior de Minas. A tristeza sincera das pessoas e o choro por alguém que não conheciam pessoalmente habitam minha memória até hoje. Minha família também ficou triste, é claro. Meu avô e meu pai principalmente. Ficamos todos paralisados à frente da TV, sob o calor saariano do norte de Minas, devorando tudo que a tela em preto e branco mostrava. Em 1983, a vida não era como hoje, com 300 canais em alta definição e um milhão e meio de sites na Internet à disposição, mas, para uma criança de seis anos, a imagem do corpo morto de um ídolo, enrolado em uns trapos, valia como a programação de 48 horas.

O tempo foi passando, e a curiosidade e o apetite sobre a vida de Garrincha foram sendo alimentados com filmes, imagens velhas de jogos, revistas e jornais antigos, e, principalmente, com inúmeras histórias contadas por meu velho avô, num tempo em que ele se tornava tão menino quanto eu, ao recordar passagens de sua juventude.

O fascínio e a admiração pelos dribles, gols e jogadas de Mané nunca me abandonaram, mas ficaram em segundo plano, quando eu, já adolescente, tive noção da tragédia que havia sido sua vida. Toda a cachaça, todas as mulheres e toda a dor que Garrincha sentiu e causou tinham em mim o poder de serem muito mais incríveis do que sua trajetória dentro de campo.

Meu avô, talvez por perceber o interesse que eu tinha por um aspecto diferente da vida de Mané, me contava todo o tipo de história que se recordava. Lendas e fatos sobre Elza Soares, amantes suecas, litros de cachaça consumidos e a solidão de Garrincha do fim da vida. Não duvido nada que ele tenha inventado algumas coisas. Ou, pelo menos, exagerado em alguns detalhes. Nunca parei pra pensar nisso antes de escrever este texto, mas esta foi a época em que meu avô e eu estivemos mais próximos.

A vida tomou seu rumo, e meu avô e eu fomos nos afastando pouco a pouco, sem perceber que os 300 quilômetros de distância entre a velha cidadezinha do interior e a capital são tão terríveis quanto parecem ser. Adulto, com responsabilidades e contas pra pagar, me achando cada vez mais importante, deixei de lado a vida do velho ídolo Garrincha e o convívio e as histórias do querido avô. Sem imaginar a falta que elas me fariam e sem saber que era isto o que realmente importava...

Garrincha morreu no dia 20 de janeiro de 1983. Eu tinha seis anos de idade. Mesmo sem ter muita noção do que era a morte naquele tempo, eu percebi que não era uma coisa legal, ao sentir de perto a tristeza do meu velho avô. Naquele dia, uma parte muito boa de sua vida morreu também. Em dezembro de 1997, ele também se foi. Eu me lembro bem de tudo o que senti. Uma parte muito boa da minha vida morreu também.

Neste domingo, o mundo vai se lembrar dos 30 anos da morte de Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha, meu ídolo de infância e de toda a vida. Eu também vou me emocionar, rir das histórias que conheço desde quando me entendo por gente, e rezar por ele. Mas é impossível não sentir uma saudade louca do meu velho avô, o primeiro amigo a me falar dos dribles, das noites e das tristezas do Mané. E que deixou um vazio maior ainda quando se foi.


* Para o bom e velho Venutinho, meu amigo e meu avô.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pena


Eu tenho muita pena de quem não gosta de futebol. Pena mesmo. Dó, compaixão, piedade, compadecimento, comiseração. Daquele tipo tão forte que chega a me deixar triste, com vontade de colocar o pobre diabo no colo, alimentá-lo e fazê-lo dormir. Apenas pra que ele se esqueça do quão miserável e vazia é sua condição humana.

A situação de flagelo de quem não gosta de futebol é tão deprimente que a pessoa não consegue se emocionar ao entrar num estádio lotado. Não tem palpitação nem taquicardia em semana de clássico. E nem se arrepia ao ouvir um hino, simplesmente porque não tem um clube de futebol que tome conta de seu coração inútil, infeliz e desabitado.

O cidadão justifica sua opção em não gostar de futebol, orgulhoso e arrogante, dizendo que há coisas mais importantes no mundo. Mas é claro que há, todos sabem disso! A saúde, por exemplo, é uma delas. Porque não é possível jogar futebol com o joelho quebrado, a unha inflamada ou a espinhela caída. No mais, todos os outros argumentos dos anti-futebol são ridículos, ignorantes e sem sentido.

O que me resta, enfim, é torcer para que aqueles que não gostam de futebol respirem os dias que restam de suas existências monótonas e tediosas em paz. Porque não adianta rezar para quem não tem alma nem sangue correndo nas veias. E que a eternidade reserve para eles um lugar sem emoções, sensações e sobressaltos, para todo o sempre, bem como foram suas vidinhas medíocres aqui na Terra. 


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Verdades e mentiras


 
Eu trabalho no maior site de notícias do Brasil, parte de uma das mais importantes empresas de comunicação do mundo. Deus, minha família e alguns poucos e bons amigos sabem o tanto de pedras que carreguei pra chegar lá. Algumas pedras, inclusive, foram carregadas literalmente, só pra usar aqui esta palavrinha que faz tanto sucesso hoje e é tão usada pela maioria das pessoas.

Tudo o que eu escrevo no site é verdade. Absolutamente tudo. Sou fiel à profissão que escolhi, à empresa em que trabalho e paga meu salário, e aos meus leitores. Se existe alguma mentira em qualquer matéria que publico, ela saiu da boca de um entrevistado e passou batida por todos os filtros que o bom exercício do jornalismo me obriga a usar antes de publicá-la.

‘Por que tudo isto?’, você deve estar se perguntando aí. Isto é apenas pra dizer que eu levo a sério a responsabilidade que tenho em falar a verdade quando estou trabalhando. Meu sustento depende da minha credibilidade e da confiança que passo para as pessoas em meus textos.

Mas quando estou de bermuda e camiseta, tomando uma cerveja gelada, no aconchego do meu lar, as coisas são diferentes. Uma mentirinha é sempre bem-vinda, não é mesmo? Desde que ela não prejudique ninguém e nem altere o rumo correto da vida, que fique claro. Fazer hora com a cara dos outros, sem qualquer tipo de constrangimento e humilhação, é bom dizer, é um negócio gostoso demais.

Ainda mais quando a mentira é trabalhada e pensada, envolvendo uma série de fatores que formam uma teia completamente verossímil. Ver seus amigos espantados, acreditando no absurdo que você inventou, é muito divertido.

É como eu disse. A mentirinha não deve atrapalhar nem constranger ninguém, se não vira agressão e desrespeito, e isto não tem graça nenhuma.

Portanto, se você ler alguma coisa estranha que postei no meu perfil do Facebook ou no Twitter, desconfie mesmo. Mesmo que ela pareça uma utilidade pública, um alerta importante ou uma informação relevante.  Como também pode parecer – e parece, na maioria dos casos – uma besteira de primeira grandeza.

Redes sociais são fundamentais para nossas vidas modernas, não há como negar. Mas elas não são a vida real. Nunca serão. Melhor do que cutucar é dar um abraço de verdade. Mais gostoso do que retuitar é contar um segredo ao pé do ouvido. Mais sincero do que curtir é tomar uma cerveja ou ir ao cinema com aquele amigo que você só encontra virtualmente.

Acredite em mim quando você ler alguma matéria que escrevi. É tudo verdade, pode confiar, dou minha palavra de honra. Mas, por favor, não me leve a sério nessas tais redes sociais. E nem tenha raiva se você caiu em uma das minhas lorotas. Não foi por mal. Eu só estou fazendo minha parte para que o mundo fique menos chato.

sábado, 17 de novembro de 2012

O campeonato dos jornalistas


Todo jornalista esportivo já sonhou ser jogador de futebol. Vá lá, sejamos menos radicais. A grande maioria da turma, talvez 90%, teve uma época de devaneios e planos de criança de um dia se aventurar pelos campos Brasil afora e ganhar a vida desta forma. Não que o ‘ganhar a vida’ fosse o foco principal do sonho naquele tempo. Longe disso e de qualquer plano de ser milionário com o esporte. As imagens que povoavam as mentes infantis da rapaziada nesta época eram as de estádios lotados gritando o nome dos ídolos – no caso, eles mesmos – após um gol de placa numa final de campeonato.

Acontece que não é nada fácil ser jogador de futebol. Se muitos jovens bons de bola, repletos de talento e habilidade, ficam pelo caminho e não conseguem chegar a um time profissional, imagina só a turma do jornalismo? Tudo bem que alguns até fazem bonito no futebolzinho do final de semana, mas o grosso dos caras é mesmo muito ruim com a pelota nos pés.

Daí se explica o fervor com que as peladas de jornalistas são disputadas e cheias de brigas e confusões. Eles são ruins de bola, verdadeiros pernas-de-pau. Mas acreditam e juram que são craques. E vai tentar falar com algum deles que não é verdade pra ver o que acontece...

Um campeonato entre as redações de esporte de tevês, rádios, jornais e sites está sendo disputado em Belo Horizonte. São 10 times no total e os jogos são disputados às segundas-feiras. É uma verdadeira festa! Dá pra imaginar qual é o único assunto entre os jornalistas nos CTs dos três clubes da cidade nas manhãs de terça. Nas tardes também. Aliás, de quarta a domingo é a mesma coisa. Até que chega a outra segunda, o tema se renova e o ciclo recomeça.

Como cada um se considera um supercraque, o papo dos jornalistas tem momentos impagáveis. São dribles, passes, gols e defesas históricas, narradas pelos próprios autores dos lances, com emoção redobrada e veracidade reduzida. O campeonato tem site oficial, fórum de discussão, chat, rede social própria e – pasmem! – até álbum de figurinhas virtual.

Os participantes se esbaldam, é claro. Sentem-se como novos Messis e Cristianos Ronaldos. Alguns acreditam de verdade que têm o mesmo talento. Já imagino o dia em que, em acessos de estrelismo, vão se recusar a entrevistar os jogadores reais, durante o trabalho cotidiano, e começar a distribuir fotos autografadas de si próprios.

O problema todo é para quem não disputa a tal Copa, como é o meu caso. Não entrei no time da minha empresa, e hoje pago o pato pela ausência. Não tenho mais ambiente entre meus amigos. Não participo mais das resenhas e nem sou convidado para um simples café com as estrelas futebolísticas do jornalismo mineiro. Sou praticamente um extraterrestre, pelo simples fato de não disputar o maldito campeonatinho deles.

Minha solução, então, foi detonar tudo o que tem relação com a competição. Falei mal da fórmula de disputa, do campo onde os jogos são realizados e do site do campeonato. Ironizei os uniformes, a bola e a arbitragem. E, no toque final de minha ira, fiz críticas terríveis aos péssimos jogadores, ao sabor dos petiscos do bar e à temperatura das cervejas servidas para a sofrida torcida. Não perdoei nada nem ninguém!

Vou falar sério agora. A verdade é que tudo não passa de inveja. Uma grande e cruel inveja, que vem me consumindo desde a primeira rodada da Copa. Que burro sou eu por não ter me inscrito no time da firma. Vejo meus amigos jogando bola, se divertindo e vivendo nosso sonho comum de infância, mesmo sabendo que é de mentirinha.

Ano que vem eu me inscrevo. Nego tudo que falei este ano. E vou ser o melhor jogador do campeonato. Porque sou um grande craque, como todo jornalista esportivo pensa que é. 


* Para meus amigos Diogo Ramalho, Fernando Martins y Miguel, Léo Mello, Marcellus Madureira, Paulo Vilhena, Samuel Venâncio e Thiago Reis, grandes craques na arte de achar que são craques.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Para Luísa



Oi Luísa. Eu ainda não te conheço. As rotinas do trabalho e a correria do dia-a-dia, enfim, essas coisas de adultos, ainda não me permitiram te fazer uma visita. Mas espero que não demore muito.

Eu sou amigo do seu pai que, infelizmente, nos deixou no último domingo. A gente trabalhou junto, lá no Superesportes, por um período pequeno, de apenas seis meses, mas que foi suficiente pra gente criar uma boa relação de companheirismo, respeito e amizade.

Nada que eu possa dizer vai trazer seu pai de volta, mas eu só queria que você soubesse que ele foi um cara muito legal. Sei que muita gente deve estar falando isto pra você, Luísa, mas nunca é demais dizer mais uma vez. A gente se identificou e ficou amigo logo de cara porque ele tinha algumas qualidades que eu admiro muito numa pessoa.

Seu pai era honesto e justo. Ele era um bom companheiro de trabalho e leal com os amigos. O Leandro era brigão, porque se indignava com as injustiças que via no mundo e não conseguia ficar omisso e calado diante delas. Ele era engraçado, irônico, divertido. Não perdia a chance de soltar uma boa piada ou gozação. E, acima de tudo, Luísa, ele amava sua mãe e você. Com o amor mais profundo e mais verdadeiro que pode existir neste mundo.

Depois que eu saí do site, mantive contato com seu pai, mas, com o tempo, fomos nos falando menos. Você um dia vai entender essa nossa rotina chata, que acaba nos afastando pouco a pouco das pessoas que a gente gosta. Mas, volta e meia, a gente se falava, por telefone, e-mail ou em alguns eventos em que a gente se encontrava e tomava uma cervejinha e ria a valer.

Sei que você vai ser uma pessoa de bem, moça. E que vai encher seu pai de orgulho, porque ele está cuidando de você, lá de onde está. Eu sei que sua mãe vai te contar que ele foi um guerreiro. Que ele lutou pra ter forças e saúde pra te esperar chegar. E que seu rostinho foi a força que alimentou os últimos dias dele aqui junto da gente.

Eu também sei que você também vai ter orgulho do seu pai quando souber quem foi ele e o tanto que ele te amou. Ninguém precisa te dizer isto, você vai ver o olhar dele nas fotos em que ele te carregava no colo.

Seja feliz, Luísa. Você merece isto. Você é símbolo de vida, de luta e de uma história de muita garra, fé e vontade, que emocionou muita gente aqui. E, acima de tudo, ame seu pai. Porque ele te amou demais. Um beijo pra você.