sábado, 18 de maio de 2013

O barraco do Tonim


O barraco do Tonim nunca foi lá essas coisas. Apenas quatro cômodos, sem reboco, chão batido, nada de piso, banheiro do lado de fora e muitas goteiras. Tá certo que era firme, todo feito de tijolos e longe da encosta do morro, uma garantia de segurança nos tempos de chuva, o que por si só já fazia do barraco do Tonim um dos melhores daquela região do aglomerado.

A Guiomar sempre se queixava com o marido. Pedia pra ele dar uma guaribada aqui, uma ajeitada ali e uma reparada acolá. Mas o Tonim enrolava, dizia que não tinha tempo nem dinheiro pra reformar o barraco e a vida ia seguindo do jeito que estava. A Guiomar, o Tonim e os cinco filhos, apertados no barraco.

Até que um dia, alguns homens de terno, gravata e sapatos caros subiram o morro. Anunciaram a todos, em vários idiomas, que iam organizar uma grande festa ali. Dessas de arromba, inesquecíveis, para fazer história. Escolheram o barraco do Tonim como principal ponto de apoio do evento, após uma disputa com outros muquifos da vizinhança. Tonim ficou orgulhoso com a vitória sobre os casebres rivais e comemorou com a criançada. A Guiomar, sem entender muito bem tudo aquilo, olhava para o marido com cara desconfiada, enquanto ele ficava rindo sozinho, imaginando a festa.

Os homens de terno, gravata e sapatos caros, que falavam vários idiomas, logo viram que o barraco do Tonim era precário e precisava de muitas melhorias para receber a grande festa. Fizeram uma lista de exigências e deram prazos para ele, que se comprometeu a deixar o barraco no jeito para uma ocasião de tamanha importância como aquela. A Guiomar, coitada, continuava alheia a tudo. Era tão dona do barraco quanto Tonim, mas não tinha sido consultada nem ouvida em nenhum momento.

Entusiasmado com as tarefas que tinha recebido dos homens de terno, gravata e sapatos caros, Tonim começou a trabalhar. Fez um orçamento para saber quanto ia gastar para cumprir todos os itens exigidos por aqueles que falavam vários idiomas. Guiomar se irritou, ao perceber que o marido planejava usar as poucas e suadas economias da família para resolver problemas supérfluos e menos importantes do que a saúde, o bem estar, o conforto e até mesmo a alimentação dos filhos. Convicto do que fazia, Tonim se justificava para a esposa, dizendo que a grande festa ia deixar um legado histórico para a família e para o barraco.

Os problemas de Tonim, entretanto, não demoraram a aparecer. Para cada real que inicialmente planejou gastar, teve que desembolsar mais dois. As obras no barraco estavam atrasadas e os amigos da comunidade que foram convidados para ajudar Tonim no trabalho pareciam querer se aproveitar dele e tirar vantagem no que podiam. Um exemplo disso foi o puxadinho feito na parte leste da casa, que, além de estourar todos os cronogramas dos homens de terno, gravata e sapatos caros, custou dez vezes mais que o previsto. Guiomar já não conseguia mais conter a indignação, ainda mais porque via os filhos acreditando cegamente nas loucuras e promessas que o pai fazia. Segundo Tonim, um dia eles iriam usufruir todos os benefícios que estavam sendo feitos no barraco.

O dia da festa chegou. O barraco estava lindo, pintado, iluminado e com novos móveis. Azulejos, piso importado, copos de cristal e uma medalha de ouro num altar. Com a urgência dos prazos, alguns detalhes ficaram pendentes, mas Tonim não se importou em escondê-los como poeira embaixo do tapete persa que estava na sala. O anfitrião, maravilhado com a multidão de gente que conversava em vários idiomas, não tinha tempo para reparar nos filhos, que, por causa dos gastos extravagantes do pai, não iam mais à escola, adoeciam com frequência e não se alimentavam direito. Cansado das constantes críticas de Guiomar, Tonim seguiu o conselho dos homens de terno, gravata e sapatos caros e mandou a esposa e a criançada para a casa da sogra, num barraco distante do seu.

Algum tempo depois, a festa acabou. Não demorou muito para levarem embora do barraco do Tonim os móveis, os lustres, o piso importado, o altar e os copos de cristal. Levaram também o tapete persa, mas, por algum motivo desconhecido, deixaram a poeira para trás. Só havia restado a medalha de ouro, mas Tonim viu, impotente, um homem de terno, gravata e sapatos caros colocá-la dentro no bolso, antes de sair do barraco.

Exausto e se sentindo traído, Tonim procurou alguém que falasse vários idiomas para receber alguma explicação. Mas todos eles também já tinham ido embora. Desesperado, se lembrou de Guiomar e dos filhos, mas quando se deu conta de que eles nunca mais voltariam porque nenhum legado havia restado daquela festa, sentou no chão e chorou. Não por se sentir só e estúpido, mas por perceber, naquela hora, que tinha perdido o que tinha de mais puro dentro de si: sua dignidade.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Padronizaram o Zé Luís


Zé Luís era um sujeito autêntico, de personalidade marcante e extremamente carismático. Era popular, tinha muitos amigos e fazia sucesso com a mulherada. Nunca teve frescura, frequentava todos os tipos de ambiente e respeitava as diferenças e particularidades de cada pessoa. Enfim, Zé Luís era um cara legal, daqueles que todo mundo tem vontade de ter como amigo.

Boêmio e amante da noite, Zé Luís não dispensava uma boa roda de samba e um show de rock. Gostava de cerveja, torresmo, frango com angu e cachaça. Não se importava com roupas de marca, carros importados e relógios caros. Estava feliz de bermuda, chinelo e camiseta. Zé sabia aproveitar a vida com responsabilidade. Sempre foi bom filho, bom aluno e um trabalhador exemplar.

Até que conheceu Sofia, uma linda moça de família rica. Criada como princesa, estudou nos colégios mais caros, morou em Paris e teve do bom e do melhor durante toda a vida. Era chamada de Fifa pelos amigos. Foi amor à primeira vista. Zé Luís nunca havia sentido nada parecido. Fifa também. Saíram algumas vezes e começaram a namorar.

No começo do relacionamento, Fifa achava graça no jeito largado e espontâneo de Zé Luís. A família da moça também gostou dele. Mas praquela história dar certo, eram necessários alguns ajustes no modo de Zé Luís se vestir e se comportar.

O rapaz estranhava os presentes que ganhava da moça. Não combinava com ele. Mas Zé Luís gostava tanto da Fifa que não se importou em ceder e mudar um pouco o estilo de ser e de viver.

Zé Luís passou a beber vinho e a ouvir jazz. Começou a usar camisa polo da Lacoste, com a blusa de frio enrolada no pescoço, relógio combinando com a cor da camisa e sapatênis. Festas e shows somente na área VIP. Passou a pentear o cabelo para trás, com muito gel. Deixou a pelada semanal com os amigos do bairro pra malhar numa academia do shopping. Comprou um Veloster. Assinou a Veja.

Não teve jeito. A Fifa padronizou o Zé Luís.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Levando desaforo pra casa


Desde criança ouço as pessoas falarem que Fulano, Beltrano e Cicrano não levam desaforo pra casa. Que se um dos três ouvir ou vir qualquer coisa que o desagrade ou o faça se sentir ofendido, vai lá e resolve a questão na hora, da forma que for possível. Na minha imensa ingenuidade juvenil, eu achava aquilo bonito. Pra mim, estava tudo certo. Um homem de verdade tinha que defender sua honra e seu nome. E, por mais que ouvisse dos meus pais que aquilo tudo era uma grande besteira, eu cismei que seria como Fulano, Beltrano e Cicrano e que jamais levaria um desaforo pra casa.

Ainda bem que não usei essa máxima por muito tempo na minha vida. Não foi difícil perceber que era mais fácil conversar do que brigar e pedir desculpas do que perder um amigo. É claro que em algumas ocasiões tive vontade de resolver da forma mais violenta, mas nada que uma boa oxigenada no cérebro, depois de ter contado até dez, não tenha consertado.

Sendo assim, Fulano, Beltrano e Cicrano e os desaforos que nunca levavam pra casa se tornaram figuras obsoletas e ridículas para mim. Como tinha ficado mais maduro e racional, achei que para todas as pessoas. Mas foi aí que me enganei completamente.

Está cada vez mais comum ver algum discípulo dos três amigos bater no peito e gritar o bordão:

- Eu não levo desaforo pra casa!

E aí tome briga no trânsito, no campo de futebol, no bar e até mesmo na festa de família. Parece ser questão de honra estar com a razão em uma conversa e se alguém discorda do Fulano é briga certa. Esbarrar no Beltrano numa boate é sinônimo de pancadaria e quebradeira. Uma brincadeira sobre a derrota do time do Cicrano e o tempo fecha. E se algum infeliz entrar na frente do carro de um dos três, numa rua engarrafada, o velho tresoitão vai sair do porta-luvas.

Quanto mais o tempo passa, mais eu vejo gente que se orgulha da fama de valente e brigão, quando deveria ser exatamente o contrário, já na metade da segunda década do século XXI. Homens e mulheres, jovens e velhos, não importa.

Uso uma citação do indiano Mahatma Gandhi para finalizar esta história. “Olho por olho e o mundo acabará cego”. Tomara que não.


P.S. – Beltrano morreu numa briga de bar, após uma discussão boba com um vizinho. Cicrano está preso, depois de ter agredido um idoso na porta de um estádio. E Fulano vive triste e arrependido, sem nenhum amigo ou parente com quem falar. Todos têm medo de Fulano porque ele nunca leva desaforo pra casa.


quinta-feira, 14 de março de 2013

Fábulas Modernas III – O jacaré embaixo da cama


Esta história se passou numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, por volta de 1970, e, por mais que pareça uma fábula, aconteceu de verdade. Tonico Aroeira era uma espécie de faz tudo de um pequeno time de futebol da região. Era roupeiro, massagista, faxineiro, cozinheiro e só não entrava em campo pra chutar a bola porque o reumatismo e a espinhela caída não deixavam.

Numa determinada manhã de verão, Tonico saiu correndo da salinha onde ficavam guardados os uniformes do time, antes de um treino, apavorado, dizendo que tinha visto um jacaré. A risada foi geral. Ninguém acreditou no pobre Tonico e todos acharam que ele estava sofrendo os efeitos do forte calor. Foi mandado para o médico do clube, que, também sem acreditar na história do jacaré, deu um calmante para o roupeiro e recomendou descanso e muito líquido.

O negócio é que Tonico via o tal jacaré praticamente todos os dias, com ou sem calor. E a cada grito de pavor era mandado mais uma vez para o médico. A dosagem dos calmantes foi ficando mais forte e, com o passar do tempo, as pessoas desconfiaram da sanidade do pobre homem. Mesmo assim, ele continuava jurando por todos os santos que tinha mesmo um jacaré na rouparia do time, ainda que nenhuma outra pessoa tivesse visto o aterrorizante bicho.

As visitas de Tonico Aroeira ao médico passaram a ser diárias, até que um dia, sem explicações, o roupeiro não foi mais ao consultório. Depois de três semanas, o doutor resolveu procurar o técnico do time para saber notícias de Tonico, e se ele finalmente tinha se curado das alucinações.

- O Tonico, doutor? O senhor se lembra do jacaré que ele tanto falava?

- Claro. Pois eu vim saber se ele já parou com estas histórias.

- Parou, uai. Pois o senhor acredita que tinha mesmo um jacaré na rouparia do clube?

- Não brinca. Mas o que aconteceu?

- O Tonico matou o bicho com uma peixeira. Tirou o couro, fez uma bola e 11 pares de chuteira, a gente tava mesmo precisando. Com a carne, o danado ainda fez um churrasco caprichado. Estava uma delícia!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Fábulas Modernas II – O menino que gritava lobo


Beto Marola começou jogando futebol nas praias do sul da Bahia. Filho de pescadores pobres, via no esporte uma chance única de ascensão social. A vida no mar era difícil e o trabalho repleto de concorrentes, já que o cacau nem de longe lembrava os tempos áureos em que as fazendas geravam riquezas e poder, o que fazia com que mais e mais pessoas saíssem do campo e se aventurassem nas embarcações mar adentro, em busca de sustento.

O talento de Beto com a bola nos pés chamou a atenção de clubes profissionais da capital e logo o garoto teve a chance de fazer um teste. Um problema, porém, tinha de ser superado por ele, e não foram poucos os que o aconselharam. Marola tinha o péssimo hábito de simular faltas e sua fama de cai-cai era conhecida de Ilhéus a Alcobaça.

Chegando ao Vitória, tradicional clube de Salvador, Beto Marola foi aprovado nos testes e não demorou a ter sua chance no time principal. A velha mania, entretanto, não o abandonou, e ele, sempre que tinha a oportunidade, simulava faltas e abusava do fingimento. Tanto fez que o técnico do time o chamou para um conversa reservada.

- Garoto, você conhece a história do menino que gritava lobo? Quando a noite caía, ele gritava, dizendo às pessoas de sua aldeia que um lobo estava entre eles. O alvoroço era enorme, até que percebiam que não havia lobo nenhum. Mas ele não se importava e repetia a brincadeira todas as noites. Com o tempo, as pessoas descobriram que era mentira e pararam de procurar o lobo. Até que numa noite escura de inverno, um lobo faminto chegou e viu o menino. Ele gritou, berrou e urrou desesperado. Mas ninguém na aldeia se importou. O lobo então, feroz e faminto, devorou o menino, que pagou por tantas mentiras que tinha contado.

- Boa história, mas o que eu tenho com isso? Aqui na Bahia não tem lobo – respondeu Beto Marola, com um riso de deboche no rosto.

- Sim, não tem lobo. Mas se você continuar fingindo que recebe faltas, quando receber, de verdade, ninguém vai acreditar.

Marola não ligou muito para a história do velho treinador e continuou seu trabalho no time. Como era muito habilidoso e tinha um talento nato para driblar, foi titular durante todo o Campeonato Baiano. A fama de cai-cai, no entanto, nunca o abandonou, e os árbitros já sabiam que Beto era capaz de simular um pênalti, mesmo que tivesse condições de continuar em pé e fazer um gol.

Chegou o dia da grande final do campeonato, e a Fonte Nova estava lotada para o clássico entre Bahia e Vitória. O jogo seguia 0 a 0, resultado que dava o título para o Bahia, quando, aos 45 minutos do segundo tempo, Beto Marola invadiu a área e levou um forte chute do zagueiro no tornozelo. A dor foi tanta que Beto caiu na hora, rolando no gramado, com a mão no local machucado. O árbitro não acreditou em Marola e não marcou pênalti. O jogo acabou 0 a 0 e o Vitória perdeu o título.

A revolta de Beto foi imensa, mas ele não encontrou apoio em nenhum de seus companheiros de time, que também acharam que ele tinha simulado, mesmo vendo o tornozelo inchado do fingidor. O velho treinador olhou para Marola com reprovação e nem a fanática torcida do Vitória xingou o juiz.

Decepcionado, Beto Marola abandonou o futebol e virou pescador em Ilhéus. Nunca mais foi visto. Dizem alguns que ele morreu comido por um tubarão, após vários alarmes falsos pelo rádio do barco. O dia em que ninguém foi a seu socorro, o tubarão apareceu e jantou o mentiroso.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Fábulas Modernas I – A cigarra e a formiga


Pedro e Paulo eram gêmeos idênticos que tinham o sonho univitelino de ser uma grande estrela do futebol mundial. Talento para isto os dois tinham de sobra e já demonstravam desde os primeiros chutes em bolas de pano, ainda crianças, dentro de casa. O olho clínico do pai não se enganou e, com os meninos ainda na pré-escola, já falava para os quatro cantos que tinha em casa dois futuros craques.

O tempo foi, aos poucos, fazendo com que o que parecia devaneio de pai coruja se tornasse realidade e, antes dos 14 anos completos, Pedro e Paulo já eram atração em qualquer campinho da cidade onde iam jogar.

Mesmo sendo iguais fisicamente, os dois garotos tinham muitas diferenças. Pedro era o esforçado da dupla e Paulo fazia o tipo bonachão. Enquanto Pedro fazia questão de caprichar nos deveres escolares e nas tarefas caseiras, Paulo não hesitava em colar do irmão e enrolar nas obrigações assumidas com a mãe, sabendo que mais cedo ou mais tarde, tudo se resolveria, de alguma forma.

Dentro de campo, com a bola nos pés, porém, os dois eram novamente gêmeos. Craques de igual intensidade, ainda que com estilos opostos. Pedro era o atacante lutador, daquela espécie que não conhece bola perdida e não descansa até finalizar a jogada à sua maneira, enquanto Paulo era o oportunista, que sabia se posicionar na área como ninguém, esperando a hora certa de dar o bote e decidir a jogada. Sem muito esforço, é claro.

E eis que chegou o dia em que a grande chance do sonho de se tornar uma estrela do futebol mundial se tornar realidade surgiu para os dois garotos. Em três semanas, dirigentes do Milan viriam ao bairro acompanhar o jogo de fim de ano entre os times locais. Os italianos levariam o melhor jogador para treinar nas categorias de base do time italiano, com contrato assinado e salário de gente grande.

A ansiedade tomou conta dos gêmeos e o assunto na vizinhança não podia ser outro. Estava claro, desde o começo, ainda que mais de 50 jogadores estivessem inscritos para o jogo, que a vaga no Milan era de um dos dois irmãos.

A maneira de passar as três semanas, entretanto, foi muito diferente para Pedro e Paulo. Enquanto o primeiro treinou como louco, com uma carga diária de exercícios pouco comum para um adolescente, o segundo descansou, fez trancinhas africanas no cabelo e ensaiou incontáveis danças e coreografias para comemorar os possíveis gols que faria.

O esperado dia chegou. Os italianos apareceram no horário marcado, com câmeras de vídeo e blocos de anotações. O campo estava lotado, com todo o bairro querendo ver o embate que levaria um garoto da redondeza para o futebol europeu. Pedro e Paulo fizeram o melhor que puderam, cada um ao seu estilo, mas nada foi suficiente para que o jogo saísse do 0 a 0 e fosse para a disputa de pênaltis.

O time dos irmãos ganhou a decisão, com ambos acertando os pênaltis que cobraram. Pedro deu socos no peito e no ar, após o gol, enquanto Paulo deu duas piruetas, quatro requebradas e fez uma dancinha esquisita de uma banda de um ritmo novo vindo do Piauí.

Em princípio, os dirigentes do Milan ficaram em dúvida sobre o irmão que levariam para a Itália, já que ambos haviam tido atuações bem parecidas na partida. Mas o imbróglio não durou muito. O semblante descontraído de Paulo, com o riso fácil, as danças e o penteado exótico, revelavam o perfil de um cara decidido, que sabe o que quer da vida. Enquanto o jeito tenso e o rosto fechado de Pedro eram típicos de um sujeito que tem que lutar contra seus próprios temores e fantasmas antes de enfrentar o mundo.

A formiga Pedro deu um abraço forte na cigarra Paulo e a parabenizou pela conquista. Ainda meio aéreo, com os dedos entre as tranças africanas com as quais não tinha se acostumado, Paulo respondeu:

- Ah, Pedrão, vai no meu lugar, cara, por favor. Quero mexer com isso não.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

João e Tobias


I

João e Tobias eram dois jornalistas esportivos de Belo Horizonte. Trabalhavam em jornais diferentes, mas o dia-a-dia de pautas comuns fez com que se aproximassem e se tornassem amigos. No começo, uma amizade casual, que, aos poucos se tornou sólida e sincera. Tanto que, com o tempo, se tonaram companheiros inseparáveis, parceiros para todos os programas e ocasiões.

Em julho de 1976, os dois foram para a Argentina, como enviados especiais dos jornais, para cobrir o segundo jogo da final da Taça Libertadores, entre Cruzeiro e River Plate. Se o time mineiro conseguisse pelo menos um empate, repetiria o feito que apenas o Santos de Pelé tinha obtido até então e seria campeão da América.

Empolgados com a viagem, os dois prepararam as malas, os passaportes e embarcaram para a primeira experiência internacional de ambos. O cruzeirense João levava na mala também a expectativa de ver seu time campeão, enquanto Tobias, atleticano, não negava que iria torcer fervorosamente para o River.

A cobertura em Buenos Aires correu de forma tranquila e normal. O time argentino venceu a partida, o que obrigou a realização de um jogo-desempate, dali a dois dias, em Santiago, no Chile. Apressados para voltar ao hotel, arrumar a bagagem e partir para o aeroporto, João e Tobias sequer imaginavam que, em poucos instantes, suas vidas iriam mudar para sempre, ao entrar num táxi na porta do Estádio Monumental de Nuñez.


II


João e Tobias, dentro do táxi, nem viram o estranho caminho tomado pelo motorista, de tão envolvidos que estavam na conversa sobre o jogo e os planos de seguir para o Chile. Do estádio do River, no bairro de Nuñez, até o hotel onde estavam hospedados, no centro da cidade, o tempo de deslocamento não poderia passar de 25 minutos. Foi João quem primeiro notou pela janela a rodovia escura, que, definitivamente, não estava no trajeto de volta para o hotel.

Só então os dois perceberam a gravidade da situação. Numa Argentina politicamente instável, governada por militares e tomada pela insegurança, sequestros eram crimes tão comuns quanto o desaparecimento de jovens, e, ainda que não tivessem nada a ver com aquilo tudo, João e Tobias começaram a temer pelo que lhes poderia acontecer. Ainda mais quando o táxi rapidamente entrou por uma estrada de terra e parou no que parecia ser uma fazenda abandonada.


III


João e Tobias foram arrancados do carro por dois homens de verde-oliva na roupa e vermelho-sangue nos olhos, e jogados no chão, antes que pudessem falar qualquer coisa com o taxista. Tentaram explicar que eram brasileiros e que estavam no país apenas por causa do jogo do River Plate. Os soldados riram alto, dizendo que ali só tinha torcedores do Boca.

Entre chutes, socos e humilhantes tapas na face, os dois foram carregados para dentro do velho prédio. Nunca mais se viram. João foi levado para o segundo andar, um amplo salão escuro e sem ventilação, enquanto Tobias foi jogado numa espécie de porão, úmido, gelado, e com cheiro de morte, no subsolo.


IV


João passou horas encolhido num canto, sem enxergar quase nada, ouvindo gritos de horror que vinham dos andares de baixo. Com as mãos e os pés amarrados atrás do corpo, percebeu que era melhor não tentar se mover, porque ficando parado ele conseguia aliviar a dor. Depois de duas intermináveis sessões de interrogatório com os militares, onde mal conseguia falar, não tinha noção de quantas feridas e hematomas trazia no corpo.

A sensação de João era a mais terrível possível. Porque tinha entendido na conversa dos presos argentinos que o andar de cima era brincadeira de criança perto do que acontecia no subsolo, que chamavam de calabouço. Se ele mal conseguia abrir os olhos e respirar, depois de tanta pancada, o que seria de Tobias, mais fraco e frágil fisicamente, que caía de cama com um simples resfriado, no meio de alguns dos psicopatas mais cruéis e violentos da América Latina?

O cansaço fez João desfalecer, já que dormir era impossível, com tantas dores, frio e o que era pior, a agonia de não ter notícias de Tobias, que estava sofrendo ainda mais que ele. Um balde de água gelada o despertou. João foi levantado por dois soldados magros, que fumavam e davam risadas, como se estivessem num parque numa manhã de domingo. Foi jogado num banheiro onde tomou o pior e mais doloroso banho de sua vida. Recebeu roupas limpas e foi colocado num furgão, junto com outros sete companheiros de segundo andar, todos argentinos.


V



João tentou saber de Tobias, enquanto deixava o prédio, mas foi ignorado.


VI


O caso dos dois jornalistas brasileiros presos na Argentina ganhou repercussão mundial em 1976. No ano seguinte, o governo do país vizinho reconheceu o erro cometido, pediu desculpas formais e com a cumplicidade e a boa vontade dos militares brasileiros, o sofrimento de João e Tobias caiu no esquecimento.

Menos para João, é claro, que nunca se esqueceu de um segundo do que viveu, até porque o olho direito cego não permitia tal omissão. Tobias não foi mais visto, e como seu corpo nunca foi achado, foi dado como desaparecido. João fez tudo o que pôde, mas, sem contar com o apoio das autoridades brasileiras, sua missão foi se tornando cada vez mais difícil, ainda que nunca tenha desistido de encontrar o velho amigo Tobias.


VII


João nunca mais voltou à Argentina, até que em fevereiro de 2013, o Atlético foi ao país disputar um jogo pela Taça Libertadores. Já aposentado, mas ainda em atividade no mesmo jornal onde começara a carreira profissional quase 40 anos atrás, João embarcou para Buenos Aires, para cobrir o jogo e prestar a última homenagem a Tobias.

Só então ele se lembrou que nunca havia comemorado o título do Cruzeiro em 1976 e do quanto falaria no ouvido do amigo, torcedor do time rival, se tivesse tido a oportunidade.

João acompanhou o jogo do Atlético, em Avellaneda, cidade da grande Buenos Aires, e pela primeira vez na vida, ficou feliz com uma vitória do Galo, imaginando a alegria que Tobias sentiria se ali estivesse.

Antes de voltar pra casa, foi ao estádio do River Plate, o mesmo onde trabalharam no jogo de 1976. Colocou flores atrás de um dos gols, rezou para Tobias e, pela primeira vez na vida, teve plena certeza de que nunca mais veria o amigo.